segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Seis sites sobre: Literatura de Cordel

“Preste atenção por favor
na história que vou contar
ela explica o que é cordel
grande manifestação popular.”
( Paulo Araújo )


Apresentada em formato de poesia e divulgada em folhetos ilustrados com o processo de xilogravura, a LITERATURA DE CORDEL ganhou esse nome pois é exposta em cordões estendidos em pequenas lojas de mercados populares, feiras, praças ou até mesmo nas ruas.

Esta literatura chegou ao Brasil trazida pelos portugueses na segunda metade do século XIX e foi aos poucos tomando espaço na cultura popular, principalmente no nordeste.E, essa forma de escrever influenciou alguns escritores brasileiros, como Ariano Suassuna, Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto.

A equipe do Geleia Geral selecionou 6 sites sobre aquilo que se chamou na França, Literatura de Colportage (mascate); na Inglaterra Chapbook, ou balada; na Espanha Pilego Suelto, em Portugal, Literatura de Cordel ou folhas volantes.


1. Academia Brasileira de Literatura de Cordel
Fundada em 7 de setembro de 1988, a ABCL contou com o apoio de um político que emprestou sua sala de comitê eleitoral para o presidente, o vice e o diretor cultural. O site reúne diversos artigos sobre a literatura de cordel, um elenco de publicações e de gravuristas, notícias sobre a produção de cordel e sobre os eventos da ABCL, colunas sobre o tema e uma loja.


2. Cordel Online
O site conta com notícias, artigos sobre o cordel, imagens e links para outros sites do mesmo tema.


3. Teatro de cordel
Site de César Obeid, conta com uma grande quantidade de informações históricas e textos de cordel.


4. Portal do cordel
Além de informações históricas, traz uma agenda de eventos de literatura de cordel, uma lista de cordelistas, entrevistas e downloads.

5. Casa Rui Barbosa - Literatura de Cordel
Site da Casa Rui Barbosa sobre seu acervo de literatura de cordel, atualmente, o maior da América Latina no assunto com mais de 9.000 folhetos.

6. Twitter: Poesia de Cordel
Fãs da literatura de cordel criaram um perfil no Twitter.

domingo, 13 de setembro de 2009

Os melhores livros que (ainda) não lemos


4. O Velho e o mar - Ernest Hemingway
Não sei exatamente o que me atrai neste livro. Não me lembro onde ouvi falar dele a primeira vez, muito menos de Hemingway. Só sei que, desde que isso aconteceu, ficou na minha cabeça de uma forma absurda e preciso muito ler, primeiramente pelo livro em si, depois pelo autor.
3. Os Lusíadas - Luís de Camões
Camões é Camões, e qualquer apaixonado por Literatura Portuguesa sabe disso e não nega. No entanto, nunca li Os Lusíadas. Mereço a morte, eu sei. Talvez isso resulte da minha resistência a epopeias, talvez seja simplesmente uma questão de prioridades. Mas agora é questão de honra!
2. Todos os nomes - José Saramago
Porque, obviamente, não podia faltar Saramago. Um dos últimos romances que ainda não li do autor, ele está aqui justamente porque está me esperando, na minha mesa, pronto pra ser lido. Mas, a faculdade não deixa. Além disso, minha (maldita) mania de ler a última frase do livro fez com que eu quisesse mais ainda, fiquei curiosa e daqui a pouco já vou começar a lê-lo, mesmo com vários outros mais importantes. Porque não consigo resistir, Saramago me atrai de uma forma absurda.
1. Ulisses - James Joyce
Uma brincadeira que corre no meio acadêmico é a de se medir o nível intelectual de alguém pelo fato de ter ou não ter lido Ulisses. Me lembro da primeira vez que ouvi falar deste livro: foi num filme, e depois me deparei com ele na Biblioteca Municipal, um calhamaço de quase 1000 páginas, capa verde com uma folha dourada e uma aura envolvente. Desde aquele dia, meu sonho é ler Ulisses. Só sonho, porque na realidade não tenho tempo nem creio que vá conseguir dar conta do recado. Mas ficam a vontade e o plano de lê-lo nas férias - de dezembro a fevereiro, é a isso que vou me dedicar.

4. Fausto - Göethe
Desde que li Os sofrimentos do jovem Werther que me prometi ler Fausto. O motivo inicial devia não devia ser mais do que o autor, mas o interesse pela obra em si veio depois e ainda alimento o desejo. Uma fantasia de encontrar-me novamente com a maneira de Göethe, dramático e melancólico, embora pense que essa, consiga superar a primeira.
3. Último round - Júlio Cortázar
Na verdade, eu não tenho motivos para escolher esse entre tantos de Cortázar, que eu ainda não li, e me atiçam a curiosidade, mas deve ser algo ligado ao fato de que esse foi a estrada para conhecer o autor... é, acho que deve ser isso.
2. Anna Karenina - Tolstói
Mais pelo autor do que propriamente pela obra, e mais do que esse papo de morrer-sem-ler, acho que meu caso com esse livro é o título, acho linda essa sonoridade. O livro divide opiniões e isso me deixa muito intrigada.
1. Mulheres - Charles Bukoswki
Já comecei a ler em e-book inúmeras vezes, mas não é fácil concluir um livro dessa extensão frente do computador. Bukowski me atrai, principalmente, pela época que ocupa na literatura. Ainda não li porque me falta tempo, só isso... antes do fim do ano, eu me prometo!

4. O vermelho e o negro - Stendhal
Já perdi as contas de quantas vezes comecei a ler esse livro. Mas sempre acontece alguma coisa e sou forçada a abandonar a leitura. Quando retomo, acabo tendo de voltar ao início novamente e nunca consigo terminar. Uma vez, dando uma lida em uma comunidade do orkut chamada "Procrastinação Literária", descobri que ele é o campeão da meia-leitura. Ou seja, um monte de gente começa, mas acaba largando. Bom, um dia eu leio. Um dia.
3. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios - Marçal Aquino
Esse é só mesmo por causa do título genial.
2. Panamérica - José Agripino de Paula
Todo mundo fala desse bendito livro. Caetano Veloso, por exemplo, tece elogios absurdos em Verdade tropical. Engraçado que eu nunca o vi em lugar nenhum, nem em livraria, nem em biblioteca.
1. Medo e delírio em Las Vegas - Hunther S. Thompson
Para não me alongar muito, vou resumir: existe uma conspiração mundial que me impede de ler esse livro. Mas eu preciso lê-lo. Preciso.

sábado, 5 de setembro de 2009

Muito além do oeste

Zumbis, tiros e metanarrativa marcam o primeiro romance de Antônio Xerxenesky


“Consciência e metaficção são sinônimos”, escreveu Daniel Galera em seu Twitter há uns dias atrás. E essa constatação do escritor paulista aponta para uma característica bastante recorrente na produção literária contemporânea. Se por um lado brotam por aí livros que nada mais apresentam do que a cópia da cópia do que já foi escrito há décadas atrás, por outro lado surgem outros que procuram escapar de caminhos já exaustivamente trilhados na literatura. E muitas dessas obras têm encontrado percurso alternativo na metaficção, se estruturando sobre seus mecanismos ficcionais e fazendo da construção do texto a própria matéria da narrativa
Mas a metanarrativa também não é aposta certa, pois essa estratégia, por si só, não garante qualidade nem originalidade. É necessário, além do bom uso da metaficção, uma boa história a ser contada. E são justamente esses dois pontos os grandes acertos de Areia nos dentes (Não Editora, 2008).
Classificar o romance de estréia do gaúcho Antônio Xerxenesky não é tarefa das mais fáceis. A primeira definição que talvez possa saltar à vista – um faroeste com zumbis – é simplista demais para descrever a empreitada assumida pelo autor. É um faroeste? Sem dúvidas. Tem zumbis? Sim. Armas, tiros, mortes? Também. Mas Areia nos dentes vai além.
Em linhas gerais, o livro conta a história da rivalidade entre os Ramirez e os Marlowes, habitantes da cidade de Mavrak, e é permeado por todo o ódio e intriga típicos de tramas sobre disputas de clãs. E, uma vez que a história é um faroeste, claro que não poderiam faltar armas, tiros, chapéus, índios, um saloon e outros clichês inerentes ao tema. Mas o tour de force do romance está na história paralela: um homem que escreve justamente sobre esse confronto entre as duas famílias, em um texto que, assumindo sua própria condição de ficção, narra não só a história dos Marlowe e dos Ramirez, mas também as etapas e dificuldades da construção dessa narrativa, desde a dúvida de como iniciar o relato, até o vírus que invade o computador do narrador-personagem. E, além da ascendência desse narrador – revelada aos poucos ao longo do livro –, há outro traço que o liga aos personagens de Mavrak: os percalços das relações entre pai e filho, que são desenvolvidos no romance em perspectivas distintas.
Os recursos gráficos utilizados por Xerxenesky também são grandes acertos no livro, especialmente no capítulo que tem a estrutura de um texto de teatro – com rubricas como “[Samuel Marlowe cospe no chão]” e “[Juan vai ao banheiro vomitar]” – e na sequência na qual uma perseguição a cavalo divide a página em duas colunas, cada uma mostrando os pensamentos de um dos personagens envolvidos.
Xerxenesky encontrou na hibridização entre o faroeste da década de 60 e a metanarrativa que caracteriza parte da literatura pós-modernista, uma ótima maneira de contar uma história sobre um pai, um filho e alguns zumbis. Estranho, não? Mas em um momento no qual surgem tantos escritores que apenas repetem fórmulas já desgastadas e os prêmios literários – salvo raras exceções – coroam os mesmos autores de sempre, um romance esquisito e corajoso como o de Xerxenesky sem dúvida chama atenção. Classificar Areia nos dentes é difícil sim. Mas lê-lo é fácil, fácil. E bastante divertido também.
*


Antônio Xerxenesky é um porto-alegrense nascido no fim de 1984. Publicou o livro de contos Entre (Fumproarte/Ed. Movimento) e outras narrativas curtas em antologias e revistas. Seu conto "O desvio" (que integra a antologia Ficção de polpa, vol. 1) foi adaptado para a tevê por Fernando Mantelli em 2007. Areia nos dentes é seu primeiro romance.

*


Areia nos dentes
Antônio Xerxenesky
Não Editora
144 páginas
R$ 25,00

*
(quer ler um capítulo do livro? clica aqui)
*

domingo, 23 de agosto de 2009

O timbre da verdade

Aqui no Geléia Geral, Anderson Pires já pode se considerar de casa. Ele já apareceu no blog em duas ocasiões distintas: em uma entrevista sobre o ECO Performances Poéticas – evento do qual é um dos organizadores – e também com uma reunião de quatro de seus poemas.

Para quem ainda não conhece a poesia do Anderson, fica aqui a dica: vale muito a pena conhecer. Ao contrário do que talvez poderia se esperar na literatura de um cara que é ligado à teoria – Anderson é doutor em Letras e professor da UFJF e do CES -, sua poesia é diretamente conectada ao mundo real.

Nunca abrindo mão de um lirismo quase cínico, talvez herdado de Manuel Bandeira ou, quem sabe, de Bob Dylan, os textos de Anderson podem ser lidos como uma espécie de reação ao caos. Ou como a atitude de alguém, que discordando com a direção para a qual vê todo mundo seguindo, simplesmente toma nas mãos o volante e faz uma curva de 180 graus, enquanto no rádio um rock dos anos 60 anuncia o fim do mundo no último volume.
O que está impresso nos versos livres de Anderson são as coisas que sabemos existem não porque alguém nos contou, mas porque as vemos todos os dias bem na nossa frente: da solidão dos centros urbanos ao rock & roll, passando pela lei antifumo e, claro, pelas idas e vindas do amor.

Dessa vez, Anderson nos enviou por e-mail esse lindíssimo “Noites brancas”. Não deixem de ler. E de reler. E de reler outras e outras vezes.




Noites brancas

Uma vez perdido na selva escura
No meio da vida – o caminho

Solitário
Sem sono e sem sonhos

Releio toda a minha contracultura

Maiakóvski sacou o lance antes de acontecer
E desde o início os inconformados partiram:
Suicídios
Overdoses
Doenças fatais sexualmente transmissíveis.

Acendo um cigarro
O funcionário do Ministério da Saúde aparece
Mostra por A mais B
Como tem gastado para tratar gente como eu
Mas nós dois sabemos: estamos mentindo
Ele me mostra o jornal do dia
È proibido fumar em São Paulo... E no Vaticano também!

4 de agosto de 2009
Juiz de Fora
Neblina e uma chuva fina

Os adúlteros fecham os portões sorrateiros
Os cães latem quando atravessam a rua

Os puritanos vigiam cada passo
Principalmente quando estão dormindo

E nós...
Ainda estaremos puros para amar
Não precisaremos confessar nossa culpa
Nem nos vangloriarmos de nossa honra
Pois não há nada no céu
Além de estrelas, satélites e seres desconhecidos.




*



Obs: O título desse post é uma referência a um verso de "Trovadores Elétricos", poema de Anderson Pires que você pode ler clicando aqui.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Blog nosso de cada dia.

O mundo dos blogs é cada vez mais uma ferramenta para as pessoas que têm rabiscos próprios. Nem sempre um diário (como sugeriu a professora doutora Luiza Lobo, sobre os blogs femininos e que gerou um grande reboliço entre as blogueiras, mas isso é assunto para um próximo post) e nem sempre com notícias de utilidade pública, os blogs assumem um papel muito mais importante do que esse: o de revelar novos talentos, além, é claro, de servir de meio para que o escritor em questão se liberte.

Pensando no enorme conteúdo que os blogs (ou seus autores) oferecem e na pouca (ou nula) divulgação dos blogs fazendo com que muita gente perca preciosidades, a equipe do GELEIA GERAL fez uma listinha básica de alguns blogs interessantes. Desfrutem!


ENTER
- Antologia Digital (Org. Heloisa Buarque de Holanda)

domingo, 9 de agosto de 2009

Baião de Três.

Santo de casa não faz milagres, marketing pessoal nem nepotismo. Mas são nossos e estão aqui.

schöner

vem cá
senta aqui comigo
joga essas penas pro chão
cuidado pra não se sujar com a tinta
senta e diz se há
no mundo algo mais belo


vem cá
vamos sentar aqui no chão
empurra estes livros pra lá
não, com estes tome cuidado
coloque na mesa
agora me diz se há
no mundo coisa mais bela


vem cá
vamos tomar um café
que é pra espantar esse sono
pra gente poder conversar
esquece o que a gente diz
de Borges e García Márquez
joga a Clarice pra um lado
que eu jogo o Saramago pro outro
só me diz se há
no mundo coisa mais bela
que esquecer esses caras
e escrever seus próprios versos
(mesmo que eles não mudem nem mesmo
a sua própria vida)

(Larissa Andrioli)

* * *

Rascunho

... e o lápis correndo agora no papel
são, em verdade, meus lábios
traçando aos poucos nos seus cabelos
detalhes no plano do nosso desejo.
E dizendo:- Ninguém predestina o desencontro,
há sempre outra página: o epílogo.
Vem comigo
ser mais que a possibilidade do impossível,
fazer o interdito dos sentidos
surgir e pertencer
a nós.

(Laura Assis)

* * *
O direito ao grito

É estranho entender aos que fazem algo na espera de algo mais. Um favor, uma bondade, um carinho, tudo isso esperando o que poderiam lhe dar em troca. Não, eu não quero isso. Também não quero que me façam nada esperando ter algo em troca. Já existe um nome pra isso? No amor não é diferente, estranho seria se fosse. Amam esperando um amor de volta. Na verdade as pessoas temem o amor, aquela dor de amor. Conversando com um amigo, já de maior idade, ele me contava de suas paixões. E eu gostava de saber. Ele contava com um brilho no olhar, e embora tivesse sofrido tanto, foi uma paixão arrebatadora daquelas que nos deixam sem rumo mesmo. As paixões não foram minhas companheiras, creio que nem o serão, pois, se paixão é meio amor e eu nunca soube amar pela metade.
Mas, não foi para falar em paixões que hoje me sentei de frente ao computador, na verdade eu estava sufocada. Sufoco-me diariamente, mas ontem... ontem foi diferente e somente hoje eu senti o alívio de ter novamente minha garganta livre. Eu poderia até gritar, mas não gritei. É que eu me sinto pressionada a fazer o que parece ser o tubo único de uma vida. Aquilo de todos precisam fazer e eu não posso fugir à maioria. Oh, como é cruel! E realmente eu queria ter nas Letras um instrumento de trabalho (uma vez que já é um instrumento na vida) sem precisar ser professora. Por fim, grito.

(Pamella Oliveira)

domingo, 2 de agosto de 2009

TOP 5 - Mulheres de José Saramago


"Muito de homens se tem falado, alguma coisa de mulheres, mas quando assim foi, como de passageiras sombras ou às vezes indispensáveis interlocutoras, coro feminino, de costume caladas por ser grande o peso da carga ou da barriga, ou então mães dolorosas por várias razões, um filho morto, outro valdevinos, ou filha desonrada, é o que não falta. De homens se continuará a falar, mas também cada vez mais de mulheres, (...) as razões são outras, ainda se calhar imprecisas, e é que os tempos vêm aí."
Levantado do Chão, p.p. 183-184


Qualquer leitor de José Saramago que tenha tido contato com mais de dois livros dele pode constatar um aspecto importante da obra do escritor: as personagens femininas. As mulheres de Saramago têm sempre uma presença marcante, chegando muitas vezes a representar o livro do qual fazem parte. Todo TOP 5 é pretensioso e o que está aqui registrado não passa de uma opinião extremamente pessoal (mas, ainda assim, compartilhável) de uma assídua leitora do escritor português sobre um universo enorme mas ainda pouco explorado (estas personagens que aqui estão foram selecionadas entre oito romances e dois contos de Saramago*). E quem ainda não leu os que aqui se encontram, fica a dica.

"Quando, uns anos mais tarde, trouxeram João Mau-Tempo para Lisboa (...), já Sara da Conceição se finara, rodeada pelo riso das enfermeiras, a quem a pobre tonta, humildemente, pedia uma garrafa de vinho, imagine-se, para um trabalho que tinha de acabar antes que se fizesse tarde."
Levantado do Chão, p. 113


5 - Sara da Conceição (Levantado do Chão)
Os pais de Sara da Conceição não queriam que ela se casasse com Domingos Mau-Tempo, que tinha fama de bêbado e que, nas palavras de Laureano Carranca, acabaria mal. Mas a teimosia de Sara foi a ponto de jurar que, "se não casasse com Domingos Mau-Tempo, não casaria com ninguém". Para terminar a guerra familiar e conseguir o que queria, num dia de Maio Sara atravessou o campo, deitou-se com Domingos no meio do trigo alto e, no caminho de casa, parou num riacho para larvar-se porque o sangue não parava de escorrer-lhe pelas pernas. Assim, Sara apareceu grávida e, com esse argumento derradeiro, casou-se. Nos anos que antecederam o suicídio do marido, teve cinco filhos, peregrinou diversas vezes e, em todas as terras em que morou, teve de ir às tabernas buscar o marido. Largou dele algumas vezes também, procurou o pai, escondeu-se à casa de vizinhos. Foi nisso que ele retornou de suas andanças, exigiu a volta dela e, não conseguindo reunir a família, procurou uma oliveira, atou a corda e se enforcou. A morte do marido voltará a atormentar Sara no final de sua vida, quando começar a sonhar que precisa limpar o vergão no pescoço do marido com vinho, para tê-lo de volta, o que "nem por sombras quereria quando acordada, mas no sonho é isto". Um dia, não tendo voltado das suas caminhadas noturnas, foram dar com ela a falar do marido como se estivesse vivo. É internada e morre ainda querendo reviver o marido.


"(...) só falta que Jesus, olhando o corpo abandonado pela alma, estenda para ele os braços como o caminho por onde ela há-de regressar, e diga, Lázaro, levanta-te, e Lázaro levantar-se-á porque Deus o quis, mas é neste instante, em verdade último e derradeiro, que Maria de Magdala põe uma mão no ombro de Jesus e diz, Ninguém na vida teve tantos pecados que mereça morrer duas vezes, então Jesus deixou cair os braços e saiu para chorar."
O Evangelho Segundo Jesus Cristo, p.p. 359-360


4 - Maria de Magdala (O Evangelho Segundo Jesus Cristo)
Bem antes de Dan Brown ficar popular por colocar um filho de Jesus na barriga de Maria de Magdala, estava Saramago unindo os dois. Trabalhar uma personagem já existente é algo complicado; ainda mais no caso desta mulher, que faz parte da história mais contada pela humanidade e durante tanto tempo foi rebaixada. Em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Saramago não adere à linha que defende que Maria de Magdala não era prostituta; esse aspecto bíblico é mantido, mas Maria, ao encontrar Jesus, com os pés feridos de caminhar, abriga-o em sua casa e abre mão de todos os homens que vêm procurá-la para cuidar daquele quase garoto. Durante uma semana, Jesus fica na casa dela e ali eles criam um vínculo que permanece após a partida dele ("Aquilo que penduraste na porta para que nenhum homem entrasse, vais retirá-lo, Não poderia ter dentro de casa dois homens ao mesmo tempo, Isso que quer dizer, Que tu te vais, mas que continuas aqui.") e dura até a crucificação, passando pela escolha dos discípulos (ela é a primeira a ser chamada por Jesus). Numa altura do romance, vem uma frase significativa: "As mulheres têm uns outros modos de pensar, talvez seja por o nosso corpo ser diferente, deve ser isso, sim, deve ser isso."

"Tem medo de mim, perguntou a morte, Inquieta-me, nada mais, E é pouca cousa sentir-se inquieto na minha presença, Inquietar-se não significa forçosamente ter medo, poderá ser apenas o alerta da prudência, A prudência só serve para adiar o inevitável, mais cedo ou mais tarde acaba-se por se render, Espero que não seja o meu caso, E eu tenho a certeza de que o será."
As Intermitências da Morte, p. 194


3 - Morte (As Intermitências da Morte)
E no dia seguinte, ninguém morreu. Com esta frase, que inicia o romance, Saramago também começa a apresentar, levemente, a personagem principal da história. A morte (com letra minúscula, porque "a Morte é uma cousa que aos senhores nem por sombras lhes pode passar pela cabeça o que seja, vossemecês, os seres humanos, só conhecem [...] esta pequena morte quotidiana que eu sou", p. 112) é humanizada de forma incrível pelo autor. E mais que humanizada, tornada mulher. A transformação da morte é, no mínimo, surpreendente. Tudo começa com uma carta que envia a um músico para avisá-lo que proximamente irá morrer (método adotado por ela depois de ficar algum tempo sem matar de todo) retorna. Intrigada, a morte a envia de novo. Mais uma vez, a carta volta. Então, ela descobre: enganou-se, a data em que o homem devia morrer já havia passado e ela não o matara. Caso inédito. A partir daí, o livro enfoca as tentativas da morte de alcançar o músico e finalmente matá-lo. Mas, ao se transfigurar numa mulher para se aproximar dele, eles acabam se envolvendo de uma forma profunda e comovente.

"A mulher do médico levantou-se e foi à janela. Olhou para baixo, para a rua coberta de lixo, para as pessoas que gritavam e cantavam. Depois levantou a cabeça para o céu e viu-o todo branco, Chegou a minha vez, pensou. O medo súbito fê-la baixar os olhos."
Ensaio Sobre a Cegueira, p. 310


2 - Mulher do Médico (Ensaio Sobre a Cegueira)
O fato de uma cidade, um país e talvez todo o mundo encontrarem-se cegos, exceto por uma pessoa já a faz merecedora de atenção. Quando essa pessoa é uma mulher, a atenção deve ser maior ainda. Obviamente, nada numa obra de Saramago está lá por acaso, muito menos isso. Talvez ele esteja valorizando a mulher, talvez alertando-a. É inegável, no entanto, que alguma coisa ele quis dizer ao criar uma personagem como a Mulher do Médico, uma mulher que demonstra, mesmo em seus momentos de maior fraqueza (como seu desespero por não ter dado corda no relógio e, portanto, estar agora desprovida de uma medida de tempo) uma força incrível. Ela não é só o pilar da relação com o marido, mas também protege e cuida de todos os outros cegos de sua camarata, que depositam nela uma confiança extraordinária, porque enxergam nela algo sólido, ainda que não saibam que ela não está cega (como a Rapariga dos Óculos Escuros demonstra em uma só frase, ao ver o desespero da Mulher do Médico com a situação do relógio: "Se a senhora, que é tão forte, está a desanimar, então é porque não temos mesmo salvação".) Sem dúvida uma das mais marcantes personagens femininas de José Saramago, talvez chegasse mesmo a ser a maior de todas, não fosse ter saído da cabeça do mesmo escritor uma mulher que não somente não é cega, como enxerga até demais.

"O grito de Blimunda, terceiro, e sempre o mesmo nome, não foi agudo, apenas uma explosão sufocada, como se as tripas lhe estivessem sendo arrancadas por gigantesca mão, Baltasar, e ao dizê-lo compreendeu que desde o princípio soubera que viria encontrar deserto este lugar. As lágrimas secaram-se-lhe subitamente como se um vento escaldante tivesse soprado de dentro da terra."
Memorial do Convento, p. 330


1 - Blimunda (Memorial do Convento)
Blimunda tem um segredo. Ao conhecê-la, Baltasar Sete-Sóis sabe que ficará ao lado dela dali pra frente, mas se depara com os mistérios da companheira. O que a levaria a comer um pão, com os olhos fechados, todo os dias, antes de se levantar? E esse segredo de Blimunda, que logo é revelado, vai desenvolver a narrativa do livro de forma belíssima. Não fosse pela estranha capacidade da mulher de, quando em jejum, enxergar o interior dos corpos, a passarola do padre Bartolomeu Lourenço não poderia voar, já que se move a vontades, e é Blimunda quem vê a vontade das pessoas, essa nuvem fechada que está dentro de todos nós e entre a vida e a morte. Blimunda Sete-Luas, como é batizada após unir-se formalmente a Baltasar ("Tu és Sete-Sóis porque vês às claras, tu serás Sete-Luas porque vês às escuras, e, assim, Blimunda que até aí só se chamava, como sua mãe, de Jesus, ficou sendo Sete-Luas", p. 56), não é só uma personagem forte; ela é, acima de tudo, alguém que prende o leitor ao livro, por sua sensibilidade. Arrisco mesmo o palpite de que seria a personificação de todas características, afloradas ou latentes, explícitas ou não, das mulheres às quais Saramago deu vida, até ali e a partir dali.


*
SARAMAGO, José. A caverna. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
______________. A jangada de pedra. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.
______________. A viagem do elefante. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
______________. As intermitências da morte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
______________. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
______________. Levantado do chão. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1980.
______________. Manual de pintura e caligrafia. São Paulo: Companhia das Letras, 1977.
______________. Memorial do convento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1982.
______________. O conto da ilha desconhecida. São Paulo: Companhia das Letras, 1997
______________. O evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.