domingo, 26 de julho de 2009

Retalhos de Conversação

I
Durante muitos anos se me acontecia acordar antes dos outros pensava que o bater do relógio de parede na sala era o coração da casa, e ficava horas e horas de olhos
abertos quieto no escuro a ouvi-la viver na certeza de que enquanto o pêndulo dançasse de um lado para o outro
sístole diástole, sístole diástole, sístole diástole
nenhum de nós morreria.

II
Quantas estradas um homem deve andar
Antes de poder ser chamado de homem?
Quantos mares uma gaivota de navegar
Antes de dormir na areia?
Quantas vezes as balas de canhão têm que voar
Antes de serem banidas para sempre?
Quantos anos uma montanha pode existir
Antes de ser levada pelo mar?
Quantos anos algumas pessoas podem viver
Antes de serem livres?
Quantas vezes um homem pode virar o rosto
E fingir que não vê?
Quantas vezes um homem tem que olhar para cima
Antes de poder ver o céu?
Quantos ouvidos um homem deve ter
Antes de poder ouvir as pessoas chorando?
Quantas mortes terão de ocorrer até que ele saiba
Que já morreram pessoas demais?

III
Um dia a morte devolverá meu corpo,
minha cabeça devolverá meus pensamentos ruins
meus olhos verão a luz da perfeição
e não haverá mais tempo.

IV
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

V
As coisas que te cercam, até onde
alcança a tua vista, tão passivas
em sua opacidade, que te impedem
de enxergar o (inexistente) horizonte,
que justamente por não serem vivas
se prestam para tudo, e nunca pedem

nem mesmo uma migalha de atenção,
essas coisas que você usa e esquece
assim que larga na primeira mesa -
pois bem: elas vão ficar. Você não.
Tudo que pensa passa. Permanece
a alvenaria do mundo o que pesa.

VI
Restam estes papéis. Resta este desenho novo, nascendo sem que eu o tivesse aprendido: a todo o momento, mesmo quando o interrompo, oferece-me a voluta principiada,
e demonstra, a cada suspensão, a probabilidade de não ter fim. Quando assento o aparo na curva interrompida de uma letra, de uma palavra, de uma frase, quando
prossigo dois milímetros adiante de um ponto final ou de uma vírgula, limito-me a prosseguir um movimento que vem de trás: este desenho é, ao mesmo tempo, o código e
a decifração. Mas o código e a decifração de quê?

VII
Poetar é como o trabalho de um mecânico de precisão. A poesia deve fazer tudo quanto possa para igualar-se às audácias da matemática. E então, de novo: como os
alquimistas, deve esforçar-se para conseguir investigações e fórmulas raras, chegar a ser ela própria uma alquimia lírica original.

VIII
Não, não é bem isso.

domingo, 19 de julho de 2009

Férias?

Férias de alunos de Letras normalmente são compostas de livros (além de outras coisas que não precisam ser mencionadas). Então, três membros da equipe se dispuseram a traçar e compartilhar seu "plano de férias".

Larissa Andrioli - Nem tudo são espinhos. Depois de 4 meses de noites mal dormidas, Homero e Saussure, as férias chegaram. E nas últimas semanas de aula foram se acumulando no meu quarto livros que eu pretendia ler nesse hiato. Alguns da Biblioteca, outros do Gilvan (valeu, Gilvan!), outros meus mesmo. Uma coisa que sempre me preocupou foi nunca ter lido Shakespeare; então, coloquei Hamlet ali, mas nem abri ainda. Na mesma situação se encontram Noites brancas, O Amor nos tempos do cólera, Laranja mecânica e Admirável mundo novo. Consegui me entregar um pouco ao Sérgio Sant'Anna e li O sobrevivente, que achei muito interessante, principalmente o conto "Frederico"; resta na lista O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro. Não avancei muito em Crime e castigo, apesar de estar gostando bastante. Culpa de José Saramago, que em A caverna conseguiu superar todas as minhas expectativas, e em Manual de pintura e caligrafia me deu uma surra (seu A paixão segundo G.H.). Continuo na minha saga para ler a obra completa dele, e os próximos da lista são O ano da morte de Ricardo Reis e Levantado do chão, que acabei de começar. Resolvi conhecer Lobo Antunes. Peguei O Esplendor de Portugal e me assustei um pouco com sua pontuação incomum (mais ainda que a do Saramago) e com sua narrativa, mas peguei o ritmo e estou achando bem interessante. Minha aposta pra esse resto de férias, agora ocupado também por Friedrich e outros teóricos, fica nisso: avançar na saga saramagueana, bem como na dostoievskiana e conhecer, finalmente, Agualusa em Um estranho em Goa. Darei conta? Não creio, mas vou tentar.

Laura Assis - Na verdade, meu plano de férias inexiste, simplesmente porque não tenho férias. Ok, não tenho aulas esse mês, mas os trabalhos do mestrado têm que ser entregues na segunda semana de agosto, então subentende-se que a única finalidade das férias é fazer os trabalhos. Mas como sou desobediente, resolvi me dar uns dias de férias assim mesmo e fui para FLIP. E, como vocês vão perceber, todas as minhas leituras mais recentes estão diretamente ligadas a essa viagem.
Já terminei o período lendo O filho eterno, do Cristovão Tezza, um dos melhores livros que li nos últimos tempos. Me surpreendi principalmente com as escolhas estéticas do autor. Dentro do tema sobre o qual ele se propôs a escrever, a opção por valorizar mais a ação psicológica do que os fatos em si foi muito acertada. Já com O sol se põe em São Paulo, foi bem diferente. Há tempos me sinto em dívida com Bernardo Carvalho, nunca havia lido nada dele. No entanto, confesso que fiquei bem decepcionada com esse livro. Estória boba e mal amarrada, parece que o autor começou a escrever planejando um grande livro, mas se perdeu e escreveu a metade final de qualquer jeito. De qualquer maneira, darei a Bernardo uma segunda chance. Retomo amanhã a leitura de O filho da mãe. Falando em amanhã, lembrei que hoje terminei Dois irmãos, bom livro do Milton Hatoum. Falta alguma coisa ali e eu não sei dizer exatamente o que é. A leitura é sim agradável, mas tem algo de anacrônico naquela trama, naquele modo de narrar.
Outro livro que tenho lido, é Rilke shake, livro de estréia de Angélica Freitas. Poesia nova, bem humorada, quase subversiva, como nos versos do poema “Estatuto do desmallarmento”, um dos meus preferidos: “minha senhora, tem um mallarmé em casa? / você sabe quantas pessoas morrem por ano / em acidentes com o mallarmé?”
E ainda antes do fim das “férias”, pretendo ler L’Invité Mystère, do Grégoire Boullier. Provavelmente não vai dar tempo, mas não custa tentar. Ah, e tem também Leite derramado do Chico Buarque, que preciso reler. Mas aí nesse caso é só trabalho mesmo. E que trabalho...

Pamella Oliveira - Eu comecei a fazer um plano de férias já no início do ano quando percebi que não teria muito tempo durante o mesmo. Então, comecei por alguns que julgava mais importante, mas que acabaram sendo eliminados mais tarde. No fim das contas, quando me vi tendo que pegar os livros que me interessavam realmente e que eu pudesse ler no meu, relativamente, curto período de férias, a lista ainda era enorme! Por uma sorte do destino, achei os mais difíceis que eram os livros do Chico Buarque: Estorvo, Leite derramado e Benjamin, e, acredito que eu não precise ter um porquê pra ler Chico Buarque. Também listei um que me deixava curiosa por ter sido um dos principais livros da geração Beat, coisa que me interessa muito, que é o On the road do Jack Kerouac, que eu achava que seria difícil de achar, e não foi. Ainda bem. Mas, em compensação, um que muito me interessava mas era impossível-de-encontrar-em-uma-biblioteca-pública: Pergunte ao pó, aquele mesmo que Bukowski chamou de "ouro no lixo" quando o encontrou, o motivo desse livro é que John Fante é uma pessoa que me chama atenção. O evangelho segundo Jesus Cristo do cara que nos inspirou nesse post: José Saramago, porque eu ouvi dizer uma vez que, depois desse livro, alguém que já tinha uma espécie de fé duvidosa deixaria de ter e mudaria completamente para o lado dos ateus, quis experimentar. Também acredito que uma pessoa que não pode morrer sem ler Jorge Luis Borges, então peguei O elogio da sombra que muito me encheu os olhos. Até aqui não tinha nada que eu já conhecesse a fundo, então eu peguei Doze contos peregrinos do meu sempre querido Gabriel García Márquez, porque era um dos famosos dele e que constavam na minha lista de ausência ainda, e se eu não lesse nada dele me sentiria incompleta. Fiquei frustrada por não achar Onde andará Dulce Veiga? do ilustre Caio Fernando Abreu que tem até versão cinematográfica, porém também muito difícil de encontrar, e é um da minha lista de férias que eu não vou conseguir ler. E, por último, (a citar, uma vez que a lista é bem maior) Romance negro e outras histórias do Rubem Fonseca, porque tenho boas lembranças dele, e lembranças são sempre ótimas referências.

domingo, 12 de julho de 2009

Sérgio Sant’Anna e o texto tatuado

Mesmo com a polêmica que circundou a iniciativa, o projeto Amores Expressos sobreviveu e os livros – escritos por diferentes autores que passaram um mês nos mais distintos lugares do planeta – estão sendo aos poucos lançados.
O primeiro foi Cordilheira, de Daniel Galera, sobre o qual inclusive já escrevi por aqui. Depois veio O filho da mãe, de Bernardo Carvalho e tudo indica que o próximo será O texto tatuado, de Sérgio Sant’Anna, que teve um capítulo publicado na Granta BR número 4 e do qual transcrevo aqui um trecho:

Eu estava sentado numa mesa de fundos do bar A dançarina. Gostava de observar as pessoas na penumbra e achava bonito e misterioso como as luzes multicores do letreiro e da figura da dançarina da fachada incidiam indiretamente no interior do bar. A dançarina parecia ter sido inspirada numa espanhola, ou numa cigana, ou uma mistura disso, ou nada disso. O ritmo de seus movimentos era sincopado, regularmente ela aparecia com a saia esvoaçante deixando ver suas coxas, admiráveis, azuladas, vermelhas, prateadas...
O rapaz se aproximou tão sorrateiramente de minha mesa que foi como um espectro surgindo de lugar nenhum. Era elegante de corpo, magro, algo pálido, sinuoso, bonito, embora seus cabelos amarrados num rabo de cavalo já correspondessem a um modelo antigo. Mas era o tipo de jovem que teria a seus pés as garotas mais interessantes, ou velhos depravados. Ou os deuses a seu serviço, se quisesse escrever poesia. Também poderia deslizar por um palco, fazendo o papel que pedissem dele, até mesmo o de Hamlet, sem solenidade, sem deixar de ser ele mesmo. Ou vagar pelas ruas mais tortuosas de Praga, ou pelas margens do rio, para conseguir drogas a qualquer custo.
Sim, eu adivinhava seus braços roxos sob as mangas compridas de uma camisa de cor verde clara, que parecia caminhar para cor alguma, ajustada a seu corpo e enfiada para dentro da calça larga, amarrada por um cordão grosso.
Meu coração bateu mais forte e empalideci, porque li no jovem o seu futuro. Seria mais um, desde muitos séculos, a atirar-se nas águas do Vlatava, sem ter medo, já indiferente, de certa forma já morto antes do salto.
Do mesmo jeito que, agora, não parecia desesperado, quando me disse, em inglês:
– Por Deus, não me mande embora antes de ouvir o que tenho a lhe propor.
– Não estou interessado em nada – eu disse.
– Nem mesmo fragmentos de um texto desconhecido de K., tatuados no corpo de minha irmã gêmea nua?

Tem mais coisa na revista, mas ficaria inviável publicar aqui, é um capítulo grande. Esse é a passagem inicial. Por enquanto o que dá para perceber é que Sant’Anna parece continuar seguindo os rumos da metaficção: o narrador/protagonista se chama Serge e é um escritor. E, pelo jeito, o romance é justamente sobre literatura. E o resto é esperar para ler.
*

domingo, 5 de julho de 2009

domingo, 28 de junho de 2009

Macunaíma e a infidelidade

por Wallace Andrioli Guedes*


Vou começar esse texto com uma lembrança pessoal: estava no terceiro ano do Ensino Médio, e, naquela época, o livro Macunaíma, de Mário de Andrade, estava entre as obras exigidas para o vestibular da UFJF. Me recordo perfeitamente do meu professor de literatura de então, em sua aula, exibindo o filme homônimo, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, e comentando as cenas que iam surgindo na TV. Na realidade, ele não chegou a exibir o filme completo, acelerando a imagem em momentos que julgava pouco importantes, simplesmente comentando que, no livro, aquilo ocorria de forma diferente, mas como os responsáveis pelo filme não tinham dinheiro na época para adaptar a rapsódia modernista ao pé-da-letra, eles simplesmente criaram aquelas soluções. No fim, aliás, essa era a impressão que o professor buscava passar: Macunaíma-filme era uma obra tosca, mal-feita, uma adaptação ruim do texto original - hoje me pergunto o porquê dele ter exibido o filme em sala de aula, já que o detestava tanto, e só posso concluir que o motivo foi a velha ideia de que assistir a uma adaptação de uma obra literária para o cinema substitui o ato de ler o original. Enfim, naquela época, não poderia nem sonhar que, um dia, teria tal filme como meu objeto de estudo na graduação e no mestrado.

Uma outra pequena história, tão significativa quanto a primeira: já no final da minha graduação, comentando com um colega de curso sobre o filme Macunaíma, tive de ouvir o comentário de que Mário de Andrade deveria estar "se revirando em seu túmulo" por causa daquela adaptação.

Não pretendo entrar aqui no mérito de como analisar uma obra fílmica adaptada de um original literário, até porque não domino profundamente o assunto, mas me parece que, decididamente, estas duas pessoas citadas acima precisam urgentemente repensar a forma como enxergam a relação entre cinema e literatura. E, quem sabe, precisam também rever, como novos olhos, o Macunaíma de Joaquim Pedro de Andrade.
Lançado nos cinemas brasileiros em 1969, num momento em que a ditadura militar embrutecia-se (o AI-5 havia sido instituído em dezembro de 68), Macunaíma foi, provavelmente, o acontecimento cinematográfico daquele ano no país. Seu diretor, Joaquim Pedro, era um cineasta proveniente do Cinema Novo (formava, com Glauber Rocha e Leon Hirszman, a chamada "santíssima trindade" daquele movimento), acostumado com a linguagem documental (é de sua autoria o clássico documentário Garrincha, Alegria do Povo), e não foi com pouca surpresa que sua incursão pelo universo de Mário de Andrade foi recebida. Surpresa, aplausos, prêmios e muito sucesso de bilheteria. Com Macunaíma, pela primeira vez um filme de um cinemanovista alcançava grande êxito de público. Assistindo ao filme, não é difícil entender o porquê: a verdade é que Macunaíma é um trabalho genial, uma impressionante mostra de sintonia de um artista com o seu tempo.
Joaquim Pedro não se prende a amarras. Usa o livro de Mário como um ponto de partida, mas o adapta de forma absolutamente original. Tudo em Macunaíma-filme dialoga com o seu tempo: o uso exagerado das cores, as aproximações com estética e linguagem tropicalistas, o ácido subtexto político que perpassa sua narrativa, a recuperação da antropofagia de Oswald de Andrade. Aliás, como viria a afirmar o próprio Joaquim Pedro, seu filme é muito mais uma leitura do mundo pelos olhos de Oswald do que pelos de Mário. Sendo "infiel" ao original, o cineasta é extremamente fiel a Mário de Andrade, e ao espírito modernista. Mostra que a rapsódia de Macunaíma não é uma obra datada, presa ao seu tempo, impossibilitada de dizer algo a outras gerações; pelo contrário, é extremamente dinâmica, subversiva, e tal dinamismo só foi captado a partir do momento em que Joaquim Pedro entendeu a importância da "infidelidade" em sua adaptação (como o próprio chegou também a afirmar). Uma compreensão, que não consigo deixar de pensar, faria muito bem ao meu ex-professor e ao meu colega.

Fica aqui a dica deste clássico absoluto do cinema brasileiro, ainda, felizmente, fundamental.



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*Wallace Andrioli Guedes nasceu em Juiz de Fora, MG, em 1986. Graduou-se em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 2008 e, atualmente, cursa Mestrado em História Contemporânea na Universidade Federal Fluminense, pesquisando as relações entre o filme “Macunaíma”, o Cinema Novo e o modernista Oswald de Andrade. Em seu blog, Crônicas Cinéfilas, publica críticas cinematográficas.

domingo, 21 de junho de 2009

Não dá mais pra Murilo Mendes

Porque Juiz de Fora tem muito mais poesia. E vai aqui uma brevíssima compilação.
Muitos poetas ficaram de fora. Ainda tem muito, muito mais.


Cadeira (Fernando Fábio Fiorese Furtado)

Fonética da cadeira — Quando não seja muda, trata-se de uma consoante ora oclusiva, ora fricativa.
Morfologia da cadeira — Os autores divergem quanto a classificá-la como artigo ou numeral (nas lojas e show-rooms), adjetivo ou pronome (nas empresas e repartições públicas), preposição ou interjeição (nos apartamentos de subúrbio). Sem embargo, predominam os que a consideram apenas conjunção.
Sintaxe da cadeira — Em geral sem sujeito, oculta o homem-nádegas. Pode-se atribuir-lhe incontáveis predicados, embora permaneça assento, braços e espaldar.
Estilística da cadeira — Se há estilo, declina para o não ser cadeira.
As leituras da cadeira — Manuais de instruções, bulas de antipiréticos, anais de congressos de lingüística, relatórios de guarda-chaves, resenhas do último livro do último filósofo francês.

*

Cadeira é oração para excomungar cama, porta e caminho.

#


Ao princípio (Iacyr Anderson Freitas)

as palavras perderam-se
pelo chão comum
das mitologias, ah
decerto não souberam chegar
ao princípio
ao âmago
ao núcleo da água e do limo
(quem as visse
ante o ouvido endurecido,
já perdidas,
rogando clemência ou nacos de pão
ou vinho)


mas nada, nada resta agora
das palavras,
sua geometria quebrou-se,
desolada.


pois que não fique pedra sobre pedra,
pois que nada ao tempo frutifique
e além do extremo recinto
reste apenas uma nau,
sozinha,
e um dique.

#


Manuscrito (Edimilson de Almeida Pereira)

A cada um seu desaparecimento.
Me impressionam as flores,
oficinas de zeros.
Não me ocorre outro nome para elas,
mas pressinto algo em família.
Como se pétalas e veias nascessem
do mesmo alfabeto.
E num caderno durássemos,
ainda que extintos.

#


Domingo (Nilson Assunção Alvarenga)

trinta e três e continuo contando relíquias de um tempo que não vivi
sentir passar o tempo não é nada
dói é a alegria de estar vivo
sem anestesia
enquanto os carros passam e a esquina fica,
inequívoca

#


mulher em processo (Camila do Valle Fernandes)

as palavras secas, duras, masculinas
as palavras perigosas e pontiagudas entre gritos e sussurros
as palavras penetrantes:
autonomia, repertório, simultaneidade, dessublimador,
associação imagética, corte epistemológico,
marcador diferencial, narrador heterodiegético e
a expressividade em processo.
É que uma mulher não fala assim.
Fala em independência, vocabulário e junção.
Ao que parece e por exemplo.
A palavra, se é do homem e está na minha boca,
o meu corpo sabe: só faço isso para me masturbar.

#


cheguei atrasado no campeonato de suicídio (André Monteiro)

cheguei atrasado no campeonato de suicídio
eu queria ser santo e ouvir o silêncio
mas o mundo contaminado desde adão não me deixa a morte em paz
e o piloto automático da nave dos loucos nunca soube apertar
(digo apertar completamente)
o botãozinho do foda-se quem puder nessa casa santa
onde a gente janta com os pais
pede a benção e vai dormir no espelho
entupido de referências analgésicas
qualificativos como poeta, intelectual e artista me provocam nojo
mas eu os utilizao quase que explicitamente
porque nunca fui santo
e quase sei reconhecer um poema ao vê-lo
e quase sei que amo por exemplo pierrot le fou que é um poeta típico
que escreve, sofre, mata e se mata por amor
o amor é a palavra-chave
e o amor pode preencher páginas e páginas de besteiras
e o amor rima com dor
e é cego e etc
e é o princípio de tudo e no princípio era verbo
intransitivo?
a boa poesia se enfia no rabo
falha-me deus pelo abandono que não possuo

#


Tu, tempo, de adeuses (Arnaldo Sobrinho)

Tu, tempo, de adeuses
E desvarios teu tecido. Ignoras
O corpo flébil, a garganta de areia
Desterrado o canto mais luminoso.

Se é verdade que de arduidade e fundura
O amor dos poetas, ao menos permite
A dádiva de se encarnar em palavra
O vermelho desta sede – o poema,
Esse castigo.

#


Desabafo (Tiago Rattes)

essa vida é uma aposta furada estapafúrdia
um sem fim de versos marginais
dissonantes como os acordes mais
fortes, da guitarra de Lúcio Maia
rasgados, mal-educados, diacrônicos
sílabas apertadas livres
apertos incontáveis
tristes, tipo
uma nóia de Manu(el) Bandeira

Meu caro poeta, aprendi errando
que a palavra é arma mortal
um puta tiro que insiste em sair
pela culatra
e atingir a boca errante
de quem fala
a amarrar as mãos de quem
as escreve
a palavra é forma ingrata tal
o corpo de quem recebe as doses
alopáticas do bombardeio poético
e de cara fechada
vê a vida passar.

#


Esparsos (Carolina Barreto)

Fila infinda.
É nesta que aguardamos
Nossos passos
- já pisados por outrem –

nesse déspota (entediante...)
alvorecer

Os dias se devoram
um a um
nesta ânsia de
prosseguir:

Tecemos nossa mortalha
de dia e à noite
desmanchamos. Doce
esperança
é esta que se inaugura
à margem de si mesmo

no entre-tom do auto-engano
e da dúvida


###



(Obs: a inspiração do título do post vem da controversa frase "não dá mais pra Diadorim", dita por um personagem do conto "Intestino grosso" de Rubem Fonseca.)

domingo, 14 de junho de 2009

Um dedinho de prosa

Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. Há quem leve a vida inteira a ler sem nunca ter conseguido ir mais além da leitura, ficam pegados à página, não percebem que as palavras são apenas pedras postas a atravessar a corrente de um rio, se estão ali é para que possamos chegar à outra margem, a outra margem é que importa, a não ser... a não ser que esses tais rios não tenham duas margens, mas muitas, que cada pessoa que lê seja, ela, a sua própria margem, e que seja sua e apenas sua, a margem a que terá de chegar. Mas será a vida um espaço articulado? E os atos, limitam-na ou ampliam-na? Talvez nada possa ser melhorado, arte alguma criar melhor do que o mundo. E se há limites, são os nossos próprios limites. Então escrever a palavra mínima, que não encerra o vivido e antes o abre para o infinito. Diário de viagem sem viagem ou carta sem nenhum destinatário: palavras que, no máximo interagem, com outras palavras do dicionário. Um escrever que é verbo intransitivo que se conjuga numa só pessoa. Um texto reduzido a substantivo menos que abstrato: se nem mesmo soa, como haveria de querer dizer alguma coisa que valesse o vão e duro esforço de fazer sentido? Por outro lado, a coisa dá prazer. Dá uma formidável sensação (mesmo que falsa) de estar sendo ouvido. O escrito é mais silêncio, quando lido. Certos livros viram camisas europas medalhas. Nos fazem retratos, vozes ditadas à nossa voz. Sigilos sigilosos para nós. Que é feito de minha frase que a lavra de outra fala inventa? A literatura, que é a arte casada com o pensamento e a realização sem a mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano, se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal. Creio que dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror. Os campos são mais verdes no dizer-se do que no seu verdor. As flores, se forem descritas com frases que as definam no ar da imaginação, terão cores de uma permanência que a vida celular não permite. Eu gostaria que o leitor se descobrisse a si mesmo, também, nos meus livros. A si mesmo e ao autor, ao mesmo tempo. Nós somos todos tão parecidos. Todos.


*


ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. Agir: Rio de Janeiro, 2005.
ANTUNES, António Lobo. Entrevista concedida à Revista LER em Maio de 2008.
BRITTO, Paulo Henriques. Tarde. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
PEREIRA, Edimilson de Almeida. As coisas arcas. Juiz de Fora: Funalfa Edições, 2003.
SANT'ANNA, Sérgio. O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro. São Paulo: Ática, 1982.
SARAMAGO, José. A caverna. São Paulo, Companhia das Letras, 2000.
SOARES, Bernardo. Livro do desassossego. São Paulo: Brasiliense, 1986.