terça-feira, 24 de maio de 2011



Nesta quarta-feira, 25 de maio, o Eco Performances Poéticas desembarca no Rio de Janeiro para participar do CEP 20000. O CEP 20000 é um dos mais importantes e tradicionais eventos de poesia do Brasil, tendo como seu anfitrião o poeta múltiplo, Chacal. Há 20 anos é um espaço de difusão, exposição, amplificação, e ressonância da poesia e de outras formas de arte no Rio de Janeiro. Acontece toda última quarta do mês, no Espaço Cultural Sérgio Porto, no bairro de Humaitá. Dentro do CEP20000, um dos quadros, símbolo da permanente renovação do evento, é o espaço do jornal Plástico Bolha, onde estará o Eco. O convite foi oficializado por um dos editores do Plástico, o poeta Lucas Viriato, que já esteve em JF, marcando presença no Eco.
Nesta quarta, a trupe vai ecoar em terras cariocas, no ritmo da excursão. Escalados: Anelise Freitas, Luiz Fernando Priamo, Laura Assis, Larissa Andrioli, Tiago Rattes e nosso maestro das pick-ups, Pedro Paiva. Participa também André Capilé, fundador do Eco e figura fundamental na ponte poética entre Rio e JF e a fotógrafa Thais Thomaz, que tem feito um belo trabalho de registro do Eco.


PROGRAMAÇÃO:

CINECURTA CEP:
Pretinho Babylon, de Emílio Domingos e Cavi Borges

POESIA:
Romã Neptune, André Pessoa, Gregório Duvivier, Ismar Tirelli Neto,
Leonardo Marona e a participação dos poetas da oficina Farani Cinco Três!

ESPECIAL DE JUIZ DE FORA:
Eco Performances Poéticas - a missão!
com: André Capilé, Anelise Freitas, Larissa Andrioli, Laura Assis,
Lucas Viriato, Luiz Fernando Priamo, Tiago Rattes de Andrade,
Thais Thomaz (fotos) e Pedro Paiva (som)

MÚSICA:

Dimitri BR: voz e cavaquinho
(diahum.blogspot.com)
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Os Siderais
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Show da banda DeLírios Tropicais
(myspace.com/deliriostropicais)


Blog do Plástico Bolha: jornalplasticobolha.blogspot.com

sábado, 16 de abril de 2011

Literatura em 140 caracteres

Todo leitor que tem twitter sabe dizer como é difícil às vezes expressar num único tweet o que você quer falar. Todos já passaram por isso. Alguns fizeram disso, inclusive, um diferencial. É o caso de Fabrício Carpinejar (@CARPINEJAR), que posta no seu twitter basicamente algo que poderíamos chamar de frases de efeito, ou de Marcelino Freire (@MarcelinoFreire), que produz microcontos.
Então há algumas semanas nos propusemos a fazer uma brincadeira: resumir algumas obras literárias (clássicas ou não) em 140 caracteres. O resultado você confere logo abaixo. E lançamos o desafio: tente adivinhar os livros que resumimos (e resuma você também algum).



Estudante pobre pega empréstimo, mas não tem como pagar e mata a credora. Fica o resto do tempo se culpando e acaba fodido na Sibéria.

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Jagunço quer pegar o outro jagunço, que é meio esquisito. Sertão, sertão, sertão. Um monte de gente morre. No fim o jagunço esquisito era mulher.

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Do nada todo mundo fica cego, menos uma lá. Os ceguinhos brigam por comida. Do nada todo mundo volta a enxergar. Tudo isso sem pontuação.

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A prova de que velho também pensa em sexo, que a bunda é engraçada e que setembro rima com membro.

*
Pseudo-escritor conhece uma velha japonesa muito doida e vai pro Japão atrás de um ator viado. Depois descobre que a japa era meio mentirosa.

*

Jogador de futebol retardado se masturba o dia inteiro e vai jogar na Alemanha. Vira terrorista pra comer as 72 virgens do paraíso. Mas não.

*

Cara leva chifre da mulher, vai morar com o pai e começa a receber uns pacotes nonsense. Não entende o heir's pistol e enlouquece.

*

Cara amarela na hora da porrada e amigo morre. Anos depois resolve bater nums moleques pra se redimir. E ia escalar uma montanha, mas desistiu.

segunda-feira, 4 de abril de 2011



Poesia, música, diversão, arte, conversas, discos de vinil, microfone aberto, cervejas, encontros e desencontros poéticos: o Eco está de volta, entrando em seu quarto ano de agitação da cena poética da cidade.
O foco continua sendo a produção e divulgação da poesia autoral. Mas a composição do elenco desse primeiro Eco de 2011 destaca também o intercâmbio constante e necessário entre a literatura e outras artes: no dia 07 de abril estarão no palco do Mezcla o poeta e músico Knorr, a escritora e musicista Juliana Stanzani e a atriz e poeta Raphaela Ramos.
Depois das leituras do elenco de convidados, rola o tão amado e esperado microfone aberto. E a já clássica trilha sonora por conta das pickups de Pedro Paiva.
Não se esqueça que a entrada é franca e que seremos pontuais.
Convide seus amigos, ajude a divulgar o Eco e - o mais importante - apareça por lá!

sexta-feira, 18 de março de 2011

Eu é um outro e tudo é caos

Alteridade e ambiguidade em Do fundo do poço se vê a lua, de Joca Reiners Terron.

Não se reconhecer. Desejar ser outro. Querer nascer outra vez. Normal? Pode ser uma fase. Uma crise. Ou até um dia ruim. Mas e se essa idéia é a obsessão que norteia toda uma vida? Até onde alguém iria para se perder e se achar diferente? No caso de Wilson, protagonista de Do fundo do poço se vê a lua (Companhia das Letras, 2010), a qualquer lugar. Mas o problema acaba sendo resolvido no Egito, pois o compromisso de Joca Reiners Terron, um dos 17 escritores participantes do projeto Amores Expressos, era justamente contar uma história de amor que se passasse naquele país. E como o próprio autor disse em entrevistas, uma de suas primeiras decisões relativas à trama do livro foi a de não partir do óbvio, uma história de amor romântico – “Imaginei que era o que todo mundo ia fazer”. Terron optou por colocar como tema central do enredo um amor fraternal nem um pouco ortodoxo.
Entram em cena então o já citado Wilson e seu irmão Willian (esses dois nomes, retirados do conto de Edgar Allan Poe, são apenas o começo das inúmeras referências à mitologia do duplo citadas no romance). Irmãos gêmeos, univitelinos, os dois guardam uma grande diferença que, ao mesmo tempo, equilibra e desequilibra uma equação que deveria ser simétrica. Enquanto William é um homem masculino, viril, tanto internamente quanto na aparência externa, Wilson sente-se desde sempre diferente: feminino, tem uma inteligência mais sofisticada e cresce com referenciais nada convencionais. Um desses referenciais, a figura de Cleópatra, se transformará na obsessão que irá guiá-lo por toda a vida na busca de sua própria identidade.
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Eu percebi muito cedo que poderia nascer de novo. E renasci mesmo, não numa câmara hiperbárica ou coisa assim, mas numa mesa de cirurgia, e não estou me referindo a uma cesariana. Meu primeiro nascimento foi em São Paulo, em janeiro de 1967. E a segunda vez foi na África, no Egito, na cidade do Cairo, a Mãe do Mundo, e mais precisamente no palco do Club Palmyra, quase quarenta anos depois. É necessário, porém, esclarecer que muita coisa aconteceu entre esses dois nascimentos, e que tudo partiu de um simples equívoco.
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Terron passou um mês no Cairo e em seu blog na época classificou o Egito como um “paradoxo ululante”, pois enquanto “templos e monumentos de 3.000 anos AC continuam intactos, em muito breve as recordações do século XIX e XX não passarão de ruínas”. Atualmente o país está literalmente caindo aos pedaços: “Aqui no Egito um número impressionante de pessoas morre soterrada pela própria casa ou achatada nas ruas por sacadas que despencam sobre sua cabeça.”. Bem diferente dos livros de história, o país é, hoje em dia, um lugar decadente e desagradável.
Mas o perigo vai além. Enquanto cobria a celebração dos egípcios pela queda do presidente Mubarak, na Praça Tahrir, no Cairo, a equipe da CBS News foi rodeada por uma multidão de manifestantes e, no meio da confusão, a repórter Lara Logan se perdeu do resto de sua equipe. Foi encontrada cerca de 20 minutos depois, sendo agredida sexualmente por um grupo de homens egípcios que se aproveitaram do tumulto. É exatamente esse o Egito das páginas do romance de Terron. Uma importante cena do livro, inclusive, constrói-se em torno do perigo e da violência latente nas ruas do Cairo, onde episódios de estupro e assédio sexual – na maior parte das vezes tendo turistas como vítimas – acontecem com uma freqüência assustadora.
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Where are you from, o rapaz pronunciou de maneira quase incompreensível. Whérrráriúfrrrôum, ele repetiu cheio de Rs e avançando para o meu lado. Faltava um ponto de interrogação na frase, o que a deixava mais parecida a uma denúncia do que a uma pergunta, de onde você é, ele acusava. Sua boca arreganhada devia ter sido subtraída a uma máscara de monstro e não lembrava nem de perto qualquer tentativa de contato amistoso.
Aquilo parecia um sorriso, mas não era um sorriso.
Apavorada, olhei para todos os lados e então percebi que não havia mais ninguém naquelas ruínas.
(...)
Estávamos completamente a sós, o monstro e eu.
Mais ninguém.
Aiaiai.
E então ele me tirou para dançar.
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Na época de seu lançamento Do fundo do poço se vê a lua dividiu opiniões. Enquanto no Twitter e nos blogs repercutiam boas impressões de leitores e escritores, pelo menos duas resenhas bastante negativas – uma delas publicada na Folha de São Paulo – circularam na internet. A quantidade de informações e acontecimentos ao longo do romance foi criticada e acusada de ter como objetivo esconder uma trama vazia. No entanto, são justamente esses vários eventos que constroem o intrincado enredo do livro. O autor já parte de um mote principal bastante complexo, mas não se furta a desdobrá-lo ao longo da narrativa. Ele não tem medo de perder o fôlego. E não perde. Nós que por vezes nos perdemos tentando alcançá-lo. Joca se esconde em vielas escuras do Cairo, de onde de repente aparece com mais uma surpresa, mais uma reviravolta mirabolante. A não-linearidade da narrativa – que em alguns momentos acompanha cronologicamente a vida dos gêmeos e em outros narra cada movimento das horas de estada de William no Cairo, que vai ao Egito atrás do irmão que não vê há anos –, e o ponto de vista narrativo propositalmente confuso e ambíguo ajudam a aproximar Do fundo do poço se vê a lua de uma narrativa cinematográfica e fazer do livro quase uma obra de realismo fantástico, mas que não deixa de se (des)organizar em torno do caos da realidade.




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Do fundo do poço se vê a lua
Joca Reiners Terron
Companhia das Letras
280 páginas
R$ 45,50



segunda-feira, 7 de março de 2011

Literatura dá samba

E um dia, afinal, tinham o direito a uma alegria fugaz
Uma ofegante epidemia que se chamava carnaval,
o carnaval, o carnaval
(Chico Buarque, Vai Passar)

— Oh! uma história de máscaras! quem não a tem na sua vida? O carnaval só é interessante porque nos dá essa sensação de angustioso imprevisto... Francamente. Toda a gente tem a sua história de carnaval, deliciosa ou macabra, álgida ou cheia de luxúrias atrozes. Um carnaval sem aventuras não é carnaval. Eu mesmo este ano tive uma aventura...
(João do Rio, O bebê de tarlatana rosa)

Já apertaram o botão da folia
Terreno de alegoria maior
E as avenidas já fervendo suadas
Que gigante tentação enfeitada
(Nação Zumbi, Carnaval)

Somos um povo muito variado e mesmo contraditório: o que para alguns parecerá defeito é, para outros, encanto. Quem diria que tantas pessoas bem comportadas, e aparentemente elegantes e finas, alimentam, durante trezentos dias do ano, o modesto sonho de serem ursos, macacos, onças, gatos e outros bichos? Quem diria que há tantas vocações para índios e escravas gregas, neste país de letrados e de liberdade?
(Cecília Meireles, Depois do Carnaval)

Sonho de uma terça-feira gorda

Eu estava contigo. Os nossos dominós eram negros,
[ e negras eram as nossas máscaras.
Íamos, por entre a turba, com solenidade,
Bem conscientes do nosso ar lúgubre
Tão constratado pelo sentimento felicidade
Que nos penetrava. Um lento, suave júbilo
Que nos penetrava... Que nos penetrava como
[uma espada de fogo...
Como a espada de fogo que apunhalava as santas
[extáticas.

E a impressão em meu sonho era que estávamos
Assim de negro, assim por fora inteiramente negro,
— Dentro de nós, ao contrário, era tudo claro
[ e luminoso!

Era terça-feira gorda. A multidão inumerável
Burburinhava. Entre clangores de fanfarra
Passavam préstitos apoteóticos.
Eram alegorias ingênuas, ao gosto popular,em cores cruas.

Iam em cima, empoleiradas, mulheres de má vida,
De peitos enormes — Vênus para caixeiros.
Figuravam deusas — deusa disto, deusa daquilo, já tontas e seminuas.

A turba, ávida de promiscuidade,
Acotevelava-se com algazarra,
Aclamava-as com alarido.
E, aqui e ali, virgens atiravam-lhes flores.

Nós caminhávamos de mãos dadas, com solenidade,
O ar lúgubre, negro, negros...
mas dentro em nós era tudo claro e luminoso!
Nem a alegria estava ali, fora de nós.
A alegria estava em nós.
Era dentro de nós que estava a alegria,
— A profunda, a silenciosa alegria...
(Manuel Bandeira)


Não, não deste último carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao carnaval. Até que viesse o outro ano. E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu. (Clarice Lispector. Restos de Carnaval)

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Entrevista com a escritora Mariana Schuchter

No fim de 2010, mais especificamente no dia 1º de dezembro, a escritora juizforana Mariana Schuchter lançou P-47, seu segundo livro. Publicado com recursos da Lei Murilo Mendes (assim como seu antecessor, o infanto-juvenil O diário de Karoline), o romance histórico narra as trajetórias do brasileiro Jorge e do austríaco Artur, desde a infância até o envolvimento de ambos nos conflitos da 2ª Guerra Mundial. Mariana concedeu ao GG #001 uma entrevista por email, na qual falou um pouco sobre o livro recém-lançado, mas também sobre linguagem, gênero, mercado e publicação.
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GG: O que te inspirou a escrever um romance histórico? Lendo o livro dá pra imaginar que você teve bastante trabalho com pesquisa. Como foi esse processo?

Mariana: Tenho consciência de que a sociedade como conhecemos hoje, em suas variadas faces – positivas ou negativas –, passou por todo um processo de evolução histórica. Esse é um dos motivos pelos quais a história sempre me instigou. Acredito muito que, para se construir uma sociedade um pouco melhor, precisamos conhecer os erros e acertos de nossos antepassados. Nesse sentido, a literatura, para mim, é um canal para com o leitor que visa estimular a reflexão acerca do mundo, dos resultados de nossos atos, e do que ainda poderemos fazer, como indivíduos reais, sem crer em utopias, para uma possível mudança da situação atual. No caso da obra P-47, tentei levar o leitor a pensar um pouco mais sobre a violência e seus reflexos na história e no nosso dia-a-dia.
Aliada à curiosidade pela história, tive a oportunidade de conviver, desde bem pequena, com um mestre, Prof. Franz Hochleitner, um austríaco que lutou na Segunda Guerra e construiu uma história de vida incrível aqui no Brasil. Assim, pude conhecer um pouco mais deste universo da guerra através de suas histórias e fotografias, principalmente quando sua biografia chegou em minhas mãos antes de ser revisada para a publicação. Pedi a autorização dele e utilizei algumas cenas em minha obra.
Para a composição dos personagens brasileiros, fiz um trabalho intenso de pesquisa na Internet e em livros. A verdade é que temos muito pouco material disponível sobre a atuação do Brasil na Segunda Guerra, que foi pequena, mas que teve resultados significativos. É claro que, para mim, isso não é motivo de exaltação, já que muitos dos nossos soldados foram sacrificados por ideologias irresponsáveis e jogos de poder.

Eu percebi que você tem um cuidado especial com a linguagem, de escrever bem dentro da norma culta, em alguns momentos até com certo rebuscamento. Isso é do seu estilo de um modo geral ou é uma estratégia relacionada a esse livro especificamente?
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Em alguns momentos do livro, propositalmente, exagero um pouco no rebuscamento com a intenção de enfatizar a ironia (o que um leitor crítico poderá perceber facilmente). No entanto, acredito que, muitas vezes, isso caracterize meu estilo, que ainda não é inteiramente definido para mim, pois vem sendo construído aos poucos, a partir de meu amadurecimento literário. Não me considero uma escritora totalmente pronta (se é que isso existe realmente), mas uma escritora em formação, que ama o que faz e se dedica de corpo e alma à arte.

Você é bastante jovem e já tem dois livros publicados. Mas já partiu direto para romances, narrativas de fôlego, enquanto a maioria dos escritores começa, geralmente, escrevendo contos, por serem relativamente menos desgastantes. Isso se deu por algum motivo especial? Você escreve outros gêneros? Seus próximos livros também serão romances?

Os romances são os meus preferidos, com certeza. Isso, porque não preciso me limitar a um espaço, posso escrever desenfreadamente até não ter mais o que dizer. Além disso, gosto de conviver com os meus personagens e suas contradições por um maior período de tempo, para poder pensar e agir como eles no momento em que escrevo. Já vi muitos atores dizerem que gostam de assumir uma nova personalidade em seu trabalho. Às vezes me sinto com uma atriz, interpretando um ser diferente de mim. Já escrevi contos, poesias e, claro, textos científicos como estudante de Letras. Gosto de escrever contos, já tive uma coluna num site onde postava um diferente toda semana; mas não tenho dom para poesia. Meus versos e rimas são pobres e não conquistam publico nenhum, nem sequer a mim mesma.
Provavelmente meus próximos livros também serão romances, adultos ou infanto-juvenis. Já pensei em publicar um livro de contos, mas isso é um projeto ainda um pouco distante, para o futuro.

A literatura no Brasil me parece estar em um momento interessante. Temos vários autores novos publicando, o que tem ficado cada vez mais fácil e sempre há a possibilidade da internet (o que não é a mesma coisa, mas não deixa de ser uma publicação). Como você vê esse momento? Acha que as possibilidades e oportunidades para os jovens escritores estão mesmo aumentando? Como foi o seu caminho até a publicação dos seus livros?

Acredito que as oportunidades são maiores do que há alguns anos, com certeza. Publicar na internet, por exemplo, ficou fácil com o surgimento dos blogs, sites de relacionamento, revistas online e outros recursos. No entanto, é preciso selecionar o que se lê, porque sabemos que, com a facilidade, também há muita publicação sem qualidade. Isso não acontece só na Internet. Já é clichê dizer que até mesmo editoras publicam muitas obras que vendem, mas que não contribuem no que se refere à cultura.
Meus dois livros foram publicados pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura, que conta com duas bancas de especialistas para avaliação dos projetos a ela submetidos. O primeiro, Diário de Karoline, é um romance infanto-juvenil, o qual escrevi aos 12 e publiquei aos 16 anos de idade. Já o P-47 é um romance-histórico publicado recentemente, aos 24 anos. Neste período de intervalo entre um e outro, escrevi três livros infanto-juvenis, mas não achei que fossem suficientemente bons para divulgação. Hoje, penso muito mais em contribuir para com a sociedade, do que em apenas publicar.
As oportunidades estão aumentando sim, mas ainda tem muita gente boa desconhecida. Conseguir uma editora que realmente reconheça o trabalho do escritor ainda é difícil, porque, hoje, os livros são aprovados, muitas vezes, visando apenas o mercado consumidor, e não a promoção da cultura.

Sabemos que até mesmo nas Faculdades de Letras, os autores contemporâneos são deixados um pouco de lado. Se nem os “especialistas” lêem a literatura brasileira de hoje, quem lê? Quem você acha que é o público da literatura feita hoje no Brasil? Ou reformulando a pergunta: para quem você escreve?

É uma pergunta complexa, porque se o escritor pensar assim, nada mais será produzido. Com a licença da palavra, é como dar um tiro no escuro. Por isso, primeiramente, acho que é preciso gostar do que se faz, antes de pensar em possíveis leitores, porque a verdade é que pouquíssimos escritores no Brasil conseguem retorno financeiro só com a profissão. Os leitores são poucos – talvez uma parcela de curiosos e outra de aficionados por literatura (o que nem todos os estudantes de Letras são e não necessariamente precisam ser) –, mas é muito gratificante receber as críticas daqueles que se interessam. Neste momento, parece valer a pena ser escritor e poder contribuir para com a formação das pessoas, sejam elas poucas ou muitas.

P-47 está à venda na Livraria Vozes (Rua Espírito Santo, 963 - Centro, JF) e na Saraiva MegaStore (Shopping Independência, JF).

Contato com a autora: marichuc@ig.com.br

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Poemas de Milton Rezende

FERIADO

Estou sentado, sozinho, na mesa de um bar, numa dessas noites perdidas. Lá fora a chuva impede-me de sair e eu fico observando este meu impedimento que na verdade é fuga a uma determinação que não tenho tido. Olho para a chuva e vejo a sua cortina de indiferença. A chuva escorre e a água correndo parece trazer-me uma espécie de nostalgia semelhante à náusea. A chuva forma com suas goteiras algo parecido com uma delimitação de espaços, de vivências, de ansiedade pura. Aqui dentro a vida que tenho tido como espaço permitido ao corpo. Lá fora a vida que eu poderia (talvez) ter se imperasse o sonho de estar além do espaço físico, como uma antevisão de um espaço neutro concernente à paz. Acrescento ainda que esta noite é de finados e a questão é transpor ou não o limite da porta.

*

OBSTÁCULOS

O homem
chega até
a vidraça
fechada
e observa
a chuva.

A chuva
chega até
o homem
fechado
e observa
a vidraça.

A vidraça
fica entre
universos
interpostos
e observa
a cena.

*

RETRATOS

No alto da estante,
numa única moldura,
guardava eu algumas
lembranças – eram três
fotografias sobrepostas.

São imagens recorrentes
de paixões vividas,
de casamentos desfeitos,
tanta coisa perdida
na trama de um tempo,
submergindo prognósticos.

Num meio de semana
veio uma chuva forte
e salpicou de goteiras
os meus livros, filmes
e os retratos na estante.

Quando eu fui perceber
as fotos estavam molhadas,
manchadas e dissolvidas.
Misturaram-se as nossas tintas.
A goteira fez o que não fizera
a vida.

*

Milton Rezende nasceu em Ervália (MG), na primavera de 1962. Escreve em prosa e poesia e a sua obra se divide entre inéditos e publicados. Entre estas últimas encontram-se: O acaso das manhãs (1986), Areia (à fragmentação da pedra) (1989), De São Sebastião dos Aflitos a Ervália – uma introdução (2006) e Uma escada que deságua no silêncio (2009). Possui inéditos os livros A magia e a arte dos cemitérios e Mais uma xícara de café, para os quais procura viabilidade editorial. Exemplares dos seus livros podem ser adquiridos diretamente com o autor através do e-mail: milton.rezende@yahoo.com.br