
terça-feira, 24 de maio de 2011

sábado, 16 de abril de 2011
Literatura em 140 caracteres
segunda-feira, 4 de abril de 2011

O foco continua sendo a produção e divulgação da poesia autoral. Mas a composição do elenco desse primeiro Eco de 2011 destaca também o intercâmbio constante e necessário entre a literatura e outras artes: no dia 07 de abril estarão no palco do Mezcla o poeta e músico Knorr, a escritora e musicista Juliana Stanzani e a atriz e poeta Raphaela Ramos.
Depois das leituras do elenco de convidados, rola o tão amado e esperado microfone aberto. E a já clássica trilha sonora por conta das pickups de Pedro Paiva.
Não se esqueça que a entrada é franca e que seremos pontuais.
Convide seus amigos, ajude a divulgar o Eco e - o mais importante - apareça por lá!
sexta-feira, 18 de março de 2011
Eu é um outro e tudo é caos
Não se reconhecer. Desejar ser outro. Querer nascer outra vez. Normal? Pode ser uma fase. Uma crise. Ou até um dia ruim. Mas e se essa idéia é a obsessão que norteia toda uma vida? Até onde alguém iria para se perder e se achar diferente? No caso de Wilson, protagonista de Do fundo do poço se vê a lua (Companhia das Letras, 2010), a qualquer lugar. Mas o problema acaba sendo resolvido no Egito, pois o compromisso de Joca Reiners Terron, um dos 17 escritores participantes do projeto Amores Expressos, era justamente contar uma história de amor que se passasse naquele país. E como o próprio autor disse em entrevistas, uma de suas primeiras decisões relativas à trama do livro foi a de não partir do óbvio, uma história de amor romântico – “Imaginei que era o que todo mundo ia fazer”. Terron optou por colocar como tema central do enredo um amor fraternal nem um pouco ortodoxo.Entram em cena então o já citado Wilson e seu irmão Willian (esses dois nomes, retirados do conto de Edgar Allan Poe, são apenas o começo das inúmeras referências à mitologia do duplo citadas no romance). Irmãos gêmeos, univitelinos, os dois guardam uma grande diferença que, ao mesmo tempo, equilibra e desequilibra uma equação que deveria ser simétrica. Enquanto William é um homem masculino, viril, tanto internamente quanto na aparência externa, Wilson sente-se desde sempre diferente: feminino, tem uma inteligência mais sofisticada e cresce com referenciais nada convencionais. Um desses referenciais, a figura de Cleópatra, se transformará na obsessão que irá guiá-lo por toda a vida na busca de sua própria identidade.
Aquilo parecia um sorriso, mas não era um sorriso.
Apavorada, olhei para todos os lados e então percebi que não havia mais ninguém naquelas ruínas.
(...)
Estávamos completamente a sós, o monstro e eu.
Mais ninguém.
Aiaiai.
E então ele me tirou para dançar.
Na época de seu lançamento Do fundo do poço se vê a lua dividiu opiniões. Enquanto no Twitter e nos blogs repercutiam boas impressões de leitores e escritores, pelo menos duas resenhas bastante negativas – uma delas publicada na Folha de São Paulo – circularam na internet. A quantidade de informações e acontecimentos ao longo do romance foi criticada e acusada de ter como objetivo esconder uma trama vazia. No entanto, são justamente esses vários eventos que constroem o intrincado enredo do livro. O autor já parte de um mote principal bastante complexo, mas não se furta a desdobrá-lo ao longo da narrativa. Ele não tem medo de perder o fôlego. E não perde. Nós que por vezes nos perdemos tentando alcançá-lo. Joca se esconde em vielas escuras do Cairo, de onde de repente aparece com mais uma surpresa, mais uma reviravolta mirabolante. A não-linearidade da narrativa – que em alguns momentos acompanha cronologicamente a vida dos gêmeos e em outros narra cada movimento das horas de estada de William no Cairo, que vai ao Egito atrás do irmão que não vê há anos –, e o ponto de vista narrativo propositalmente confuso e ambíguo ajudam a aproximar Do fundo do poço se vê a lua de uma narrativa cinematográfica e fazer do livro quase uma obra de realismo fantástico, mas que não deixa de se (des)organizar em torno do caos da realidade.
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Do fundo do poço se vê a lua
Joca Reiners Terron
Companhia das Letras
280 páginas
R$ 45,50
segunda-feira, 7 de março de 2011
Literatura dá samba
E um dia, afinal, tinham o direito a uma alegria fugaz
Uma ofegante epidemia que se chamava carnaval,
o carnaval, o carnaval
(Chico Buarque, Vai Passar)
Já apertaram o botão da folia
Terreno de alegoria maior
E as avenidas já fervendo suadas
Que gigante tentação enfeitada
(Nação Zumbi, Carnaval)
Sonho de uma terça-feira gorda
Não, não deste último carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao carnaval. Até que viesse o outro ano. E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu. (Clarice Lispector. Restos de Carnaval)
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Entrevista com a escritora Mariana Schuchter
Mariana: Tenho consciência de que a sociedade como conhecemos hoje, em suas variadas faces – positivas ou negativas –, passou por todo um processo de evolução histórica. Esse é um dos motivos pelos quais a história sempre me instigou. Acredito muito que, para se construir uma sociedade um pouco melhor, precisamos conhecer os erros e acertos de nossos antepassados. Nesse sentido, a literatura, para mim, é um canal para com o leitor que visa estimular a reflexão acerca do mundo, dos resultados de nossos atos, e do que ainda poderemos fazer, como indivíduos reais, sem crer em utopias, para uma possível mudança da situação atual. No caso da obra P-47, tentei levar o leitor a pensar um pouco mais sobre a violência e seus reflexos na história e no nosso dia-a-dia.
Aliada à curiosidade pela história, tive a oportunidade de conviver, desde bem pequena, com um mestre, Prof. Franz Hochleitner, um austríaco que lutou na Segunda Guerra e construiu uma história de vida incrível aqui no Brasil. Assim, pude conhecer um pouco mais deste universo da guerra através de suas histórias e fotografias, principalmente quando sua biografia chegou em minhas mãos antes de ser revisada para a publicação. Pedi a autorização dele e utilizei algumas cenas em minha obra.
Para a composição dos personagens brasileiros, fiz um trabalho intenso de pesquisa na Internet e em livros. A verdade é que temos muito pouco material disponível sobre a atuação do Brasil na Segunda Guerra, que foi pequena, mas que teve resultados significativos. É claro que, para mim, isso não é motivo de exaltação, já que muitos dos nossos soldados foram sacrificados por ideologias irresponsáveis e jogos de poder.
Eu percebi que você tem um cuidado especial com a linguagem, de escrever bem dentro da norma culta, em alguns momentos até com certo rebuscamento. Isso é do seu estilo de um modo geral ou é uma estratégia relacionada a esse livro especificamente?
Você é bastante jovem e já tem dois livros publicados. Mas já partiu direto para romances, narrativas de fôlego, enquanto a maioria dos escritores começa, geralmente, escrevendo contos, por serem relativamente menos desgastantes. Isso se deu por algum motivo especial? Você escreve outros gêneros? Seus próximos livros também serão romances?
A literatura no Brasil me parece estar em um momento interessante. Temos vários autores novos publicando, o que tem ficado cada vez mais fácil e sempre há a possibilidade da internet (o que não é a mesma coisa, mas não deixa de ser uma publicação). Como você vê esse momento? Acha que as possibilidades e oportunidades para os jovens escritores estão mesmo aumentando? Como foi o seu caminho até a publicação dos seus livros?
Meus dois livros foram publicados pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura, que conta com duas bancas de especialistas para avaliação dos projetos a ela submetidos. O primeiro, Diário de Karoline, é um romance infanto-juvenil, o qual escrevi aos 12 e publiquei aos 16 anos de idade. Já o P-47 é um romance-histórico publicado recentemente, aos 24 anos. Neste período de intervalo entre um e outro, escrevi três livros infanto-juvenis, mas não achei que fossem suficientemente bons para divulgação. Hoje, penso muito mais em contribuir para com a sociedade, do que em apenas publicar.
As oportunidades estão aumentando sim, mas ainda tem muita gente boa desconhecida. Conseguir uma editora que realmente reconheça o trabalho do escritor ainda é difícil, porque, hoje, os livros são aprovados, muitas vezes, visando apenas o mercado consumidor, e não a promoção da cultura.
Sabemos que até mesmo nas Faculdades de Letras, os autores contemporâneos são deixados um pouco de lado. Se nem os “especialistas” lêem a literatura brasileira de hoje, quem lê? Quem você acha que é o público da literatura feita hoje no Brasil? Ou reformulando a pergunta: para quem você escreve?
Contato com a autora: marichuc@ig.com.br
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Poemas de Milton Rezende
OBSTÁCULOS
O homem
chega até
a vidraça
fechada
e observa
a chuva.
A chuva
chega até
o homem
fechado
e observa
a vidraça.
A vidraça
fica entre
universos
interpostos
e observa
a cena.
RETRATOS
No alto da estante,
numa única moldura,
guardava eu algumas
lembranças – eram três
fotografias sobrepostas.
São imagens recorrentes
de paixões vividas,
de casamentos desfeitos,
tanta coisa perdida
na trama de um tempo,
submergindo prognósticos.
Num meio de semana
veio uma chuva forte
e salpicou de goteiras
os meus livros, filmes
e os retratos na estante.
Quando eu fui perceber
as fotos estavam molhadas,
manchadas e dissolvidas.
Misturaram-se as nossas tintas.
A goteira fez o que não fizera
a vida.
*