domingo, 12 de dezembro de 2010

O que NÃO É Clarice Lispector (embora o Google teime em dizer o contrário)

Muito se diz sobre o que É de autoria de Clarice Lispector. Hoje eu quero falar sobre o que NÃO É.

Para começar, o poema Mude, cuja frase mais famosa é “MUDE. Mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade”. E foi até mesmo utilizado em um comercial da Fiat , não é de Clarice Lispector mas de Edson Marques que, em seu blog, fala mais sobre o assunto.

A frase "Pessoas felizes não têm as melhores coisas. Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos." também é constantemente atribuída à Clarice Lispector. E eu me pergunto: por quê? Não sei se em alguma parte na carreira de Clarice ela escreveu algo do tipo, porque nem mesmo com estilo as pessoas que fazem com que isso circule com a assinatura dela se importam. Difícil.

Outra coisa que gera muita confusão na internet são os poemas “escritos” por ela. Mas, o caso é que ela não escreveu nenhum! O que aconteceu é que um padre chamado Antonio Damázio fez algumas modificações na obra da Clarice sem mudar as palavras, mas dividindo a prosa em versos pois acreditava que ela fazia poesia em prosa.

Esse que, após ser lido de cima pra baixo, deve-se ler ao inverso é o que mais rola pela internet:

“Não Te Amo Mais
Estarei mentindo dizendo que,
Ainda te quero como sempre quis,
Tenho certeza que,
Nada foi em vão,
Sinto dentro de mim que,
Você não significa nada,
Não poderei dizer mais que,
Alimento um grande amor
Sinto cada vez mais que,
Já te esqueci,
E jamais usarei a frase,
Eu te amo
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais.

Também em sua obra não é possível encontrar nenhum tipo de texto motivacional. Não é o tipo de Clarice, por favor. O poema “O sonho” foi lido no programa da Ana Maria Braga e atribuído à Clarice:

"Sonhe com aquilo que você quiser.
Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que quer.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz."

Um que muito me incomoda como leitora de Clarice é o intitulado “Eu adoro voar”, um trecho dele:

“Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes.
Tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.
Você pode até me empurrar de um penhasco q eu vou dizer:
- E daí? EU ADORO VOAR!”

Devemos nos lembrar que Clarice nem sempre escrevia com “sua caneta”, digamos assim. Ela publicou durante muito tempo no Correio Feminino com pseudônimos, e esse texto, embora não pareça, É comprovadamente dela:

Cultive sua boa aparência

A boa aparência faz com que a pessoa se sinta mais feliz e com um sentimento de segurança que muito a ajudará na vida. A boa opinião que fazem de nós é na realidade muito mais importante do que admitimos a nós mesmos. (…) Com todos os recursos que temos nos dias de hoje, a mulher não pode ser feia, e só será se o quiser, deliberadamente. (…) A maior parte dos problemas de personalidade desaparecem com a melhora da aparência geral. Pelo fato de estar mais bonita, a muher se sentirá feliz e terá mais possibilidades de viver uma vida produtiva, cercada de amigos e pessoas a quem deseja ajudar. Sim, porque a beleza da mulher pode e deve ser cultivada, não somente para a vaidade e satisfação própria, mas para seu respeito e para a satisfação de sua família e seus amigos.

A gente acredita no potencial de todo mundo e todo dia a gente repete (o tempo todo) que todo mundo tem como se conhecer melhor, se entender melhor, adaptar personalidades e mudanças ao guarda-roupa e assim todo mundo tem como se apresentar melhor, sempre. E parece que não estamos sozinhas, né?

Desconfio que isso dificulte a reconhecer o que, de fato, é dela. Desconfio também que essa mudança de habitat seja uma facilidade para que obras apócrifas sejam relacionadas a ela.

Finalmente, um trecho que vejo muito no Orkut como sendo de sua autoria e que até hoje não consegui identificar (nem encontrar nada a respeito) se é dela é esse,embora tenha minhas desconfiaças de que não seja:

"Olhe, tenho uma alma muito prolixa
e uso poucas palavras.
Sou irritável e firo facilmente.
Também sou muito calma
e perdôo logo.
Não esqueço nunca.
Mas há poucas coisas
de que eu me lembre".

Sobre outros casos, achei esse texto: http://www.sotextos.com/assinaturas_conflitantes.htm

Mas, para ter certeza do que é Clarice Lispector, esse texto maravilhoso na voz de Aracy Balabanian: http://www.youtube.com/watch?v=9jpxcIxyNy8&feature=player_embedded


sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Resultado do desafio dos Beatles

Os dois únicos leitores que responderam o post foram os vencedores dos dois livros. Ambos acertaram todas as músicas. Pedimos que os dois entrem em contato pelo geleiageral001@gmail.com para que possamos pegar seus dados e enviar os livros pelo correio. Parabéns pro Otávio Campos e pra Paula!

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Não há nada que você cante que não possa ser cantado

Uns meses atrás, enquanto curtia meu momento (tardio) de beatlemaníaca, fui tomada pela súbita vontade de transformar aquelas músicas em poemas. Comecei por Something, que virou “Negação”, já conhecido do público do Eco e do meu blog. E depois não fiz mais nada. Até que há aproximadamente 3 semanas, quando pensava num projeto final para uma oficina de criação literária, lembrei dessa idéia e resolvi montar o The Beatlemania Project (nome horrível, eu sei): peguei 18 músicas, ouvi à exaustão, copiei as letras, li e reli incontáveis vezes e tirei, dali, 18 poemas. O resultado final deve aparecer em livro no ano que vem, na coletânea da oficina, mas resolvi trazer 7 dos poemas pra cá e lanço então um desafio: durante a leitura do poema, tente adivinhar a qual música ele se refere. As duas pessoas que acertarem mais e mais rápido ganham, cada uma, um livro (O porte, do Rogério Tadeu, ou Deus sabe de tudo e não é dedo-duro, do Juliano Nery) e um marcador dos Beatles (que veio diretamente de Londres).


melhor

manter sempre
sob a pele
no peito
dentro, fora

a cada dor a pausa
e a certeza de que

não se entregar esfria
mais que si
o entorno

no ombro o movimento
não o mundo

*

fogo

e minha certeza
sempre foi de que

sim:
ela era minha

na cabeça, o filme –
nenhuma cadeira
vinho
tapete
banheiro às duas da manhã
(no fundo a gargalhada) –
longe, o ruído das asas

mas não:
eu era dela

*

caminho de casa

nós duas dirigimos
(ainda sem chegar)

e mandamos postais
e escrevemos cartas em muros
e rasgamos livros
e queimamos fósforos
e vestimos casacos sob o sol de domingo
e arranhamos discos
e procuramos papéis
e arrancamos adesivos
e gastamos o suado dinheiro de alguém
e quebramos cadeiras
e estilhaçamos copos

enquanto isso –
é melhor acreditar:
voltar pra casa
não importa

nenhuma estrada supera
a extensão das memórias

*

decolagem

uma vida inteira
por um momento

voa

para dentro da luz
da noite

*

uma dose

em espelhos de arco-íris
não sinto mais que mãos de veludo

segura em meus braços
dedo como gatilho
não há quem possa me fazer mal
você é quente
e a felicidade

também

*

lição número 1

é fácil:
você aprende o jogo
você entra no ritmo
você faz mais um poema

sobre como o amor não é nada
além de

tudo

que você precisa

*

era uma vez

nos olhos as luzes
douradas

reflexo de quando era possível
voltar

pra casa

terça-feira, 16 de novembro de 2010

"Ou não... Contracultura, poesia, música e outras esquinas"


Release:
Recuperando o espírito beat das leituras poéticas unidas à música, "Ou não..." faz um passeio não-linear e descompromissado pelo universo da contracultura, partindo de precursores beatniks (como Allen Ginsberg, Jack Kerouac e Gary Snider), passando por Torquato Neto e poetas da poesia marginal dos 70 (Leminski, Chacal, Leila Micolis e Marta Medeiros) e desembarcando em JF, em pleno Kaos do terceiro milênio com textos do poeta André Monteiro, que também divide as leituras com Bruno Tuller, Edwald Winand, Edson Leão e a atriz Lívia Gomes.
Costurando esse "sarau underground", canções brasileiras que puseram o pé na estrada em meio à ditadura, ao "desbunde", à descompressão do corpo e do espírito via sexo, política, drogas e rock 'n' roll. Tropicalistas, Clube da Esquina, nordestinos... Malditos... ou não...
Fechando o ritual, mais uma dose de rock e canções setentistas em versões acústicas com a Fantástica Banda Invísivel.
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Ficha técnica:
"Arremate" cênico : Marcos Marinho
Costura de textos e roteiro : "Encruzilhada da Contracultura" - André Monteiro (poeta e professor universitário), Bruno Tuller (historiador e compositor), Edwald Winand (historiador, compositor e livreiro), Edson Leão (cantor, compositor e jornalista), Valéria Leão Ferenzini (historiadora, cantora e compositora), Fabrícia Valle (musicista) e João Paulo Oliveira (poeta).
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"Ou não... Contracultura, poesia, música e outras esquinas"
acontece no dia 20 de novembro, sábado, a partir das 22h no Espaço Mezcla
(Rua Benjamin Constant, 720, Centro - JF).
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sábado, 2 de outubro de 2010

Drops GG#001: lançamentos (ou quase isso)

Perdido no meio de tantos lançamentos? Não sabe por onde começar? O GG#001 preparou "Lançamentos (ou quase isso)", um drops especial para ajudar você a se guiar pelas estantes e sites de livrarias. Poesia e prosa, estreantes e veteranos... tem de tudo, é só escolher.

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Em alguma parte alguma - Ferreira Gullar

Depois de 11 anos sem publicar nenhum livro de poesia (o último havia sido Muitas vozes, em 1999), Ferreira Gullar lança esse Em alguma parte alguma em momento especial: aclamado como o "maior poeta brasileiro em atividade", ele acaba de completar 80 anos e ser homenageado com o prêmio Camões. Assim como em livros anteriores de Gullar, os poemas de Em alguma parte alguma também carregam muito da pulsão de vida característica da literatura do autor, que aqui se contrapõe justamente à temática de grande parte dos poemas: a morte e algumas de suas variantes, como a eternidade e o silêncio: "e então me digo: / se o mundo dura tanto /e eu tão pouco / importa pouco / se ele não for eterno".


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Verão em botafogo - Thiago Camelo

O livro de estréia de Thiago Camelo traz poemas curtos, simples e é justamente nessa simplicidade que reside o lirismo dos textos, confirmando a tese de que geralmente exagero só serve mesmo para esconder falta de sensibilidade e talento. Verão em botafogo é, sem dúvida, um livro bonito e honesto, bem como o poema "Terra": "meus pés encontram o chão e faz sentido // eu, porto seu /você, porto meu // a vida não é uma abstração / se /estamos perdidos e juntos"






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Involuntário - Luiz Fernando Priamo

O autor começou a postar poemas em seu blog, o Otário Involuntário (através do qual é possível também adquirir o livro), e juntou esses textos a outros inéditos, formando assim o repertório do seu livro de estréia. Os poemas versam, em sua maioria, sobre o cotidiano e frequentemente trazem um tom irônico e de crítica, como em "Oco": "Passa a semana coçando, / na inatividade de sua vida. / Ao final de semana, dois dias, / um para pecar no puteiro, / outro para rezar por Maria."





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O único final feliz para uma história de amor é um acidente - J.P. Cuenca

Quinto livro da coleção Amores Expressos. João Paulo Cuenca foi a Tóquio e trouxe de volta um livro maluco sobre voyeurismo, bonecas infláveis, peixes venenosos e poetas. A primeira metade do livro é bem mais interessante, construindo uma bela tensão dramática que, infelizmente, não é realizada na segunda parte com tanta eficiência. De qualquer modo o livro vale a pena, nem que seja só pelas sequências dos acidentes, essas sim muito bem desenvolvidas.




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Areia nos dentes - Antônio Xerxenesky

Esse não é exatamente um lançamento. Areia nos dentes, de Antônio Xerxenesky, foi lançado em 2008 pela Não Editora e agora ganha uma reedição da Rocco. Fiz uma resenha completa aqui, mas se você está com preguiça de clicar no link ou de ler o texto inteiro, eis tudo que você precisa saber sobre o livro: Areia nos dentes é um faroeste com zumbis, que brinca com metaficção e é divertidíssimo. Leia.






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Uma História à Margem - Chacal


Não é preciso dizer muito: livro de memórias de Chacal e Chacal é O cara. Da infância do poeta aos dias de hoje, passando pela efervescência da poesia marginal dos anos 70 e pela a agitação cultural do CEP 20.000, em plena atividade no Rio de Janeiro. Imperdível.
Trecho: "um-motor-ligado no meio da noite fria, vazia, silenciada. outros motores riscam o asfalto da noite. outros seres empreendem a jornada. entre o passado e o futuro. entre o futuro e o passado. tudo-no-presente. tudo-no-presente. tudo-no-presente. o som que risca o silêncio aqui, agora, deixa um rastro na memória e vira linguagem. o silêncio não aparece. nada aparece. está escuro e silêncio. apenas o-motor-ligado me esperando para a longa jornada. aos seios de duília? melhor não. uma tumultuada, uma indecifrável jornada para dentro de mim. da linguagem. da minha linguagem. da minha vida. um-motor-ligado me espera no silêncio da noite. tudo escuro. o-motor-ligado e uma porta de carro que fecha. o carro parte. e risca o silêncio. acende a linguagem. eu continuo aqui. ou não?"


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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Resultado do sorteio de "Involuntário"

O sorteio foi feito pelo Random.org e o resultado foi: 6.

O sexto comentário pertence a Solléria Menegati. Entraremos em contato com a sorteada por email e, se dentro de uma semana, não obtivermos resposta, será realizado outro sorteio.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Lançamento e sorteio de "Involuntário"



Aos poucos Juiz de Fora vai sendo invadida por uma nova safra de escritores. O Eco-Perfomances Poéticas, que todo mês leva aos palcos do Mezcla poetas convidados a lerem textos autorais, já é um sintoma disso. A cada edição surgem novas caras, novos versos, tanto no elenco, como no microfone aberto. E um desses poetas, que já vem mostrando sua literatura no blog Otário Involuntário, coloca agora na rua suas poesias no formato impresso. A partir da semana que vem você já poderá ter nas mãos Involuntário, livro de estréia de Luiz Fernando "Mirabel" Priamo. O lançamento será no dia 16 de setembro, quinta-feira, às 20h no Buena Vista Café (Rua Braz Bernardino, 211, Centro, Juiz de Fora).
E no aquecimento para o lançamento de Involuntário, você confere aqui no GG#001 dois poemas de Luiz Fernando Priamo, "Nota da manhã" (também publicado no jornal Plástico Bolha nº 28) e "OCO" e ainda um vídeo do próprio autor lendo "Masculino de Freud" na edição de setembro do Eco-Performances Poéticas.

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Nota da manhã

Comendo sem dó, cuspindo lá.
Rindo de todo sol que bate na corda.

Esse despropósito musical sem pares
é o que ouço todas as manhãs.

Na letargia de uma sinfonia desconexa
que nem Cage conseguiria subverter.

Caindo em pontes, escorrendo em transições,
forço riso, forte traço melódico e melodramático.

Sem fé ou ré realizo o trancar de cara e porta.
Sem si me perco na batida da rua.


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OCO

Para cada dia de perdão
são nove de sacanagem.
Nas mãos de um velhote
a fé cega e a carne
no final de sua idade.

Passa a semana coçando,
na inatividade de sua vida.
Ao final de semana, dois dias,
um para pecar no puteiro,
outro para rezar por Maria.

Nada mais resta senão molestar o terço,
nada lhe dá mais prazer
do que os mistérios gozosos.
Os pecados de suor e saliva
serão cobrados no purgatório.

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E tem mais: vamos sortear um exemplar de Involuntário, gentilmente cedido pelo autor, aqui no blog. Para participar do sorteio basta responder à pergunta "Por que você quer ganhar o livro Involuntário?" nos comentários dessa postagem e não se esquecer de deixar seu email. É necessário também que você seja seguidor do blog. Sortearemos o vencendor no dia 16 de setembro, através do número do comentário (o primeiro comentário é o número 1, o segundo é o número 2, etc) e divulgaremos por aqui (pode confiar, vamos sortear direitinho, através do Random.org). Enviaremos um email ao vencedor (que tem um prazo de 3 dias úteis para se manifestar), que poderá buscar seu exemplar no lançamento do livro (caso seja de Juiz de Fora) ou recebê-lo pelo correio. Boa sorte a todos!

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