terça-feira, 29 de dezembro de 2009

A protagonista que não estava lá

Ausência e melancolia em Sinuca embaixo d’água

Você consegue imaginar Pergunte ao Pó sem Arturo Bandini? Ou O vermelho e o negro sem Julien Sorel? E que tal um Mãos de cavalo sem Hermano?
Pois foi isso que Carol Bensimon fez em Sinuca embaixo d’água (Companhia das Letras, 2009). Ao colocar o início da narrativa após o acidente de carro que mata Antônia, a autora tirou de cena a personagem ao redor da qual gira a trama do livro, construindo justamente nesse vazio uma bela história sobre perda e ausência.
Já foi dito por aí que algumas das maiores dificuldades na construção de um bom romance estão em a) criar personagens que sejam de fato humanos, verossímeis e convincentes; b) fazer uma boa opção de narrador. A escolha do foco narrativo múltiplo de Sinuca embaixo d’água é acertadíssima. Porque se uma história sobre perda bem contada por um narrador já é interessante – pelo tanto que pode trazer de carga emocional –, esse mesmo tipo de história narrada por pontos de vista distintos fica ainda melhor, pois mostra de vários ângulos quão devastadora pode ser uma tragédia como a que marca as vidas dos personagens do livro em questão. Mas a escolha por narradores múltiplos traz um problema capital: acertar o tom de cada um deles. E no livro de Carol Bensimon esse objetivo é alcançado e Camilo, Bernardo, Polaco e os outros narrradores ocasionais – Gustavo, Helena, Santiago e Lucas – têm vozes distintas dentro do romance. E são justamente essas vozes que marcam suas identidades, fazendo que a outra dificuldade – relativa à construção dos personagens – também seja superada com sucesso na obra.
Outra característica marcante de Sinuca embaixo d’água são as descrições, bastante minuciosas, e que mais que apenas descrever, também atuam como indícios do estado psicológico dos personagens. Bernardo, por exemplo, talvez um dos mais afetados pela morte da amiga, se preocupa com todos os detalhes de cada cena que presencia, colocando em cada objeto significados que sempre acabam por estar ligados á sua história pessoal com Antônia e que, inevitavelmente, o fazem pensar na morte da amiga:

Dentro da minha mochila, a cinco ou seis metros de mim, estão as obras completas de T. S. Eliot, com meu nome na primeira página, e não foi na sala de aula que veio a vontade de ler, mas em Portrait of a lady pela boca de Antônia. Posso ir até o livro agora, e posso tocá-lo, mas Antônia não pode mais, nem tocar, nem ler, nem declamar Portrait of a lady com seu inglês às vezes descambando para um sotaque do Alabama que me fazia prender o riso, e eu não tenho a menor chance de tocar outra vem em Antônia.

As referências também são parte importante do romance e chama atenção o modo como são espalhadas pelo livro, nunca forçadas, se encaixando naturalmente na narrativa. Sem contar que é especialmente emblemático, principalmente para quem cresceu na década de 90, escutando o Use your Illusion e torcendo para o clip de "Patience" passar na MTV (é, era assim, nao tinha Youtube) ver um personagem falando sobre a indumentária peculiar (leia-se o short com a bandeira dos EUA) de Axl Rose. Mas talvez a passagem que melhor ilustre a maneira como as referências aparecem bem entrelaçadas com a narrativa, seja a que aparece em um dos capítulos iniciais, esse narrado por Camilo, o irmão de Antônia:

Ah, entendo, mas é claro que entendo perfeitamente. Não é legal ser visto num bar quando sua irmã morreu só há dois meses, porque, além de esperarem que você fique chorando trancado no quarto, também desaprovam o fato de você estar cercado de álcool, logo quando uma das desconfianças que as pessoas têm é de que ela estava tão bêbada que não pôde evitar sair voando ladeira abaixo e acabar esborrachada num poste. Mas eu fico em silêncio. Tudo bem com você? Tudo legal. Pearl Jam com os baixos estourando. Is something wrong, she said. Well of course there is. You’re still alive, she said.

Mas assim como canta Eddie Vedder, é claro que há algo errado. Camilo está vivo. Bernardo está vivo. Polaco, Helena, Gustavo. Todos estão vivos. Menos Antônia. E essa vida sem Antônia que precisa ser vivida. Mais do que aceitar a morte é preciso aprender que não há maneira menos dificil de lidar com o vazio dessa perda irreparável.
E talvez um dos pontos principais do romance, aquilo que mais intriga os personagens, principalmente Camilo e Bernardo, possa ser encontrado justamente nos versos seguintes de "Alive" : Oh and i do deserve to be? / is that the question? / And if so, if so / Who answers? Who answers? Mas a morte e a vida não têm nada a ver com merecimento, e se essa é realmente a questão, não há ninguém para respondê-la. A única resposta possível é a ausência de resposta e a única opção, como os personagens vão aprender duramente ao longo do romance, é viver. Apesar de.

*

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou contos no Zero Hora e nas revistas Ficções e Bravo!, entre outros periódicos. É mestre em Escrita Criativa pela PUC-RS, e atualmente mora em Paris, onde cursa o doutorado na Université Sorbonne Nouvelle, na área da Literatura Comparada. Publicou Pó de parede (Não Editora, 2008) e Sinuca embaixo d’água (Companhia das Letras, 2009).

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Leia aqui o primeiro capítulo de Sinuca embaixo d'água.
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domingo, 22 de novembro de 2009

5 livros para serem lidos numa ilha deserta enquanto se espera pelo resgate

Poesia completa - Carlos Drummond de Andrade


Porque Drummond é Drummond. E como já dito em post anterior aqui no blog, ele é um Poeta Maior. Neste volume, é possível se encantar com toda a obra poética do autor e acompanhar sua evolução, desde o poeta gauche de Alguma poesia até a exploração do tema da infância em seus Boitempos. Nada mais agradável e instigante do que ter um livro deste nas mãos enquanto se espera o socorro.


Grande sertão: veredas - João Guimarães Rosa


Grande sertão é, junto com Ulisses, o livro mais badalado em listinhas de dificuldade de leitura. A escrita de Rosa, aliada à linha narrativa de Riobaldo e às 608 páginas sem divisão de capítulos conseguem espantar muitos leitores. Mas quem se aventura se vê perdido num labirinto sem saída: o apreço por Rosa e pelos seus personagens tão complexos e labirínticos quanto qualquer ser humano.


Budapeste - Chico Buarque


O interessante de Budapeste é o exercício de metaliteratura realizado pelo autor. São vários livros dentro de um só livro, que podem ser lidos por várias perspectivas diferentes. Afinal de contas, quem escreveu O ginógrafo? Seria Budapeste o próprio livro escrito por José Costa? Ou ele é o relato escrito pelo ghost writer do ghost writer? Termine de ler o livro e releia com essas questões em mente. Dá para se entreter por um bom tempo.


Ulisses - James Joyce


É o tipo de livro que volta e meia aparece em listas, sejam elas quais forem. Nessa lista, especificamente, ele aparece pelo seguinte motivo: até a pessoa conseguir ler todo o livro e entender os neologismos de Joyce, com certeza o resgate já terá chegado. Vai faltar exílio para tanto livro.

As ondas - Virginia Woolf


A escolha de As ondas vai além de uma suposta obviedade com relação ao cenário. As ondas do título não são exatamente aquelas ondas que você ficará apreciando durante suas férias forçadas na ilha deserta. A estrutura narrativa do livro se realiza através de pequenos monólogos interiores de seis personagens, ao longo de todas as fases de suas vidas. De acordo com Jorge Luiz Borges, em As ondas "não há argumento, não há conversa, não há ação". E sim, ele estava elogiando o livro.

domingo, 15 de novembro de 2009

Quadrinhos, não sei por quê.

Os quadrinhos vieram pra ficar. Não que isso seja novidade, mas agora não tem em vista somente aquele público restrito conhecido como "leitores de HQ", que tinham a lojinha própria e aqueles fãs alucinados, que não liam mais nada nessa vida. Não, agora o público é maior, e as novidades do mundo comic abrangem uma área muito mais diversa do que a que fazia há uns 10 anos atrás. Super-herói ainda é o forte, mas já não é o único assunto.

Adaptações para o cinema são um exemplo dessa popularidade que os quadrinhos ganharam de um tempo pra cá, dividindo espaço, em alguns casos, em pé de igualdade, com as grandes obras-primas da Literatura. Anualmente, em todo o Brasil, são promovidas feiras dedicadas ao gênero e as grandes feiras, antes somente literárias, agora também tem espaço para o gênero.

Até Maurício de Souza aderiu ao movimento dos quadrinhos, dando uma cara nova aos seus famosos e conhecidos integrandes da Turma da Mônica, agora em versão Teens. Sendo assim, com a que aqui chamo de "popularização dos quadrinhos", os clássicos da Literatura não poderiam ficar de fora dessa moda.

Nas mãos de dois irmãos (gêmeos), Fábio Moon e Gabriel Bá, o livro de Machado de Assis, "O alienista", virou quadrinho também. Embora tenham outros trabalhos, entre eles o fanzine "10 pãezinhos", lançado pela Via Lettera, e prêmios, a adaptação de Machado resultou no Prêmio Jabuti em 2008 na categoria "Melhor Livro Didático e Paradidático de Ensino Fundamental ou Médio" . Segundo o próprio Fábio Moon, em entrevista para a Saraiva, "Eu acho que o legal ao fazer uma adaptação literária é criar uma curiosidade nas pessoas, juntando duas formas diferentes. Você pode criar interesse no leitor, de querer saber sobre o cara que faz os quadrinhos, que fez aquela adaptação."

No site dos autores, é possível encontrar mais informações sobre a obra e também outros trabalhos deles. Aqui, somente uma prova do talento dos irmãos. Clique nas imagens, amplie e saiba o porquê.



Em outros sites:
Universo HQ
Acervo HQ
HQ Maniacs

domingo, 8 de novembro de 2009

Flores do Mais

"Ana Cristina dizia que uma das facetas do seu desbunde fora abandonar a idéia de ser escritora, livrar-se do que ela naquele momento julgava ser sua face herdada, o estigma princesa bem comportada, alguém marcada para escrever". {Ítalo Moriconi sobre Ana C.}

Ana C., para os íntimos, era Ana Cristina César que nasceu no Rio de Janeiro em 1952. Morou em Londres, viajou, deu aulas, traduziu, fez Letras, trabalhou com Jornalismo e televisão, fez pesquisa sobre literatura e cinema, seus livros foram lançados em edições independentes, escreveu para jornais alternativos, e na antologia “26 Poetas Hoje” de Heloísa Buarque, ela também apareceu, suicidou-se no dia 29 de outubro de 1983. O Geleia Geral selecionou alguns poemas desta que foi um marco na poesia marginal daqueles tempos.

*

olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas

*

Tenho uma folha branca
e limpa à minha espera:
mudo convite

tenho uma cama branca
e limpa à minha espera:
mudo convite

tenho uma vida branca
e limpa à minha espera:

*

descuido não (concentração)
lembrar da caretice que você não gosta.
reaproveitar o casaquinho de banton.
quando você mal pensa que é novidade, não é.
Existe uma medida entre o descuido e a
premeditação — trata-se do cuidado (floating
attention). Daí escapam maps of England birds, pessoas seguindo numa certa direção,
bichos que vão virando gente, discretamente eróticos, desejando
mancha transparente e diluída de aquarela cor de rosa,
see?
Medida exata entre o acaso e a estrutura.
Aprender fazendo, baby.
começar pelas médias (daí para pequenas, depois para grandes)

*

Que deslize

Onde seus olhos estão
as lupas desistem.
O túnel corre, interminável
pouco negro sem quebra
de estações.
Os passageiros nada adivinham.
Deixam correr
Não ficam negros
Deslizam na borracha
carinho discreto
pelo cansaço
que apenas se recosta
contra a transparente
escuridão.

*

Em outras mídias:
Vídeos relacionados


sábado, 31 de outubro de 2009

Parabéns, Carlos!

"Contra o próprio parecer do Poeta (...) de que é poeta menor, e de ritmos elementares, e perecível, que não haja ilusão: este é Poeta Maior."
(Antonio Houaiss)



Assim começa Antonio Houaiss sua introdução à reunião de livros de Carlos Drummond de Andrade e fazemos nossas as suas palavras. Em 31 de outubro de 1902 nascia, em Itabira (MG), um dos poetas de maior expressão em língua portuguesa. Dono de uma extensa e importantíssima obra, Drummond produziu inúmeros poemas antológicos, como "José", "A mesa", "No meio do caminho", "A Máquina do Mundo", "Elegia 1938", "A Flor e a Náusea", "Conclusão". Como breve homenagem aos 107 anos que completaria hoje, selecionamos 4 poemas que não dão conta da grandeza da obra do poeta, mas são um leve esboço do que ela promete ser a quem nela se aventura.



Os poderes infernais

O meu amor faísca na medula
pois que na superfície ele anoitece.
Abre na escuridão sua quermesse.
É todo fome, e eis que repele a gula.

Sua escama de fel nunca se anula
e seu rangido nada tem de prece.
Uma aranha invisível é que o tece.
O meu amor, paralisado, pula.

Pulula, ulula. Salve, lobo triste!
Quando eu secar, ele estará vivendo,
já não vive de mim, nele é que existe

o que sou, o que sobro, esmigalhado.
O meu amor é tudo que, morrendo,
não morre todo, e fica no ar, parado.


*


A ingaia ciência

A madureza, essa terrível prenda
que alguém nos dá, raptando-nos, com ela,
todo sabor gratuito de oferenda
sob a glacialidade de uma estela,

a madureza vê, posto que a venda
interrompa a surpresa da janela,
o círculo vazio, onde se estenda,
e que o mundo converte numa cela.

A madureza sabe o preço exato
dos amores, dos ócios, dos quebrantos,
e nada pode contra sua ciência

e nem contra si mesma. O agudo olfato,
o agudo olhar, a mão, livre de encantos,
se destroem no sonho da existência.


*


Composição

E é sempre a chuva
nos desertos sem guarda-chuva,
e a cicatriz, percebe-se, no muro nu.

E são dissolvidos fragmentos de estuque
e o pó das demolições de tudo
que atravanca o disforme país futuro.
Débil, nas ramas, o socorro do imbu.
Pinga, no desarvorado campo nu.

Onde vivemos é água. O sono, úmido,
em urnas desoladas. Já se entornam,
fungidas, na corrente, as coisas caras
que eram pura delícia, hoje carvão.

O mais é barro, sem esperança de escultura.


*


Tristeza no céu

No céu, também, há uma hora melancólica
Hora difícil em que a dúvida penetra as almas
Por que fiz o mundo?
Deus se pergunta e se responde: "Não sei"

Os anjos olham-no com reprovação e plumas caem
Todas as hipóteses
A graça, a eternidade, o amor, caem
São plumas

Outra pluma, o céu se desfaz
Tão manso, nenhum fragor denuncia
O momento entre tudo e nada
Ou seja, a tristeza de Deus

domingo, 25 de outubro de 2009

A poesia dançando no segredo

Prosseguindo com as postagens sobre poetas de Juiz de Fora, trazemos hoje três poemas de André de Freitas Sobrinho (a.k.a André Capilé).
Para se ler a poesia de André, algumas coisas são necessárias. A primeira delas é, sem dúvida, um dicionário. Isso porque o poeta não se contenta apenas com a palavra em si mesma, nem com o significado óbvio dos vocábulos. Há sempre mais por detrás de seus versos, alternativas de leitura que transcendem a significação comum das palavras escolhidas, e que sempre podem potencializar a interpretação dos poemas.
É preciso também não perder a dimensão lírica (no seu sentido mais musical) da poesia, pois um traço forte da escrita de André é a melopéia. De acordo com Ezra Pound, existem três maneiras de "energizar" a linguagem poética, sendo o uso dos sons no texto poético uma delas. E em vários poemas de André é possível notar claramente o uso desse recurso, como em "qualquer nota" ("Vou, úvida uvalã, uivá-la a- / té o caroço; rebento benzo.") e "Boca vaga" ("Tala minúscula ala liqüidada./ Vem, cabra lírica, bé-berra branco. / Manquitola tola besta marcada.").
Mas talvez a melhor definição/ apresentação da poesia de André tenha sido dada por ele mesmo, no poema "por onde soa pessoa não há: há palavra": "tal que a língua atua a tua língua / e qual palavra atua a tua palavra; / então que pá cava tua aorta, / senão a sina de tua lavra?".



PassiFlora

Vestíbulo selvagem bluma
pele que dentes não conhecem.
A véspera das estrias
o sol em louça rígida
miola úmido enigma.

Sementeia pêndula, a redoma

(enruga na gaveta a matura
do fulvo melado para abrando)

bruta, é impossível despir em fatias.

*

Do parto, lembro...

Para Gilvan Procópio

Primeiro que nada
assim nasci: fiquei, antes,
deitado a meio túnel;

tão estreito era –
acordei nas luzes, foi dito –
que posto, enquanto deu, estive.

(O peso colocado – preciso
e necessário – entre tensão e dedos
apartando carne... suam no branco

os dentes mascarados. Vindo
da lâmina: o animal, roxo...
a pele o pelo a banguela o sexo o choro)

Escorri como corpo novo;
capacitei os gestos primos
e as vestes ao espanto

para não negar a tal matura
a sutura e o valor do corte.
– Já hora feita, pari-me. Ir, agora.

*

Inversões

Não fira a tola telha e não nos tolha
Na riste palma ou gesto de afago
Com flama mansa manejar escolha

Nunca vou de indo e vindo fico fido
Poeta Deus canhoto me fez gago
E sussurro em grito no seu ouvido

Leve, carregue de mim mais um trago
Verboso sussurrupio um estalido
Lido na lida e laboro no lido
Não vem troçar de mim senão me rasgo

Expurgando tal gosto vil do amargo
Abro o peito dentro já combalido
Porque te amo: por extenso, amplo e largo
Seu do meu tudo a pena ter valido

*

André de Freitas Sobrinho lançou, em parceria com Carolina Barreto, seu primeiro livro: Dois (não pares) (Anome Livros, 2008). O livro está à venda na Livraria A Terceira Margem ou pode ser adquirido diretamente com o autor no e-mail andrecapile@gmail.com

Outros textos de André no http://textoterritorio.pro.br/site

domingo, 11 de outubro de 2009

Mulheres no volante

O MnV surge com o objetivo de contribuir para a transformação do cenário atual das bandas, dos artistas e dos produtores culturais, ainda predominantemente masculino.


Inspirado em outros festivais de cultura feminista que acontecem pelo Brasil, e que discordam dos padrões sexistas, ainda muito vivos na esfera cultural como um todo, o MnV busca reafirmar e divulgar a produção feminina na música e na arte, incentivando e valorizando o trabalho das mulheres.


Iniciado a partir de uma atitude crítica ao meio social e artístico institucionalizado, o foco do festival se expandiu e se tornou uma proposta de integração entre os sexos, ampliando a sua proposta artística.


O festival promove oficinas (percussão, guitarra, bateria, skate, grafite, malabares, customização de roupas), rodas de conversa (debates) temáticas e congrega diversas manifestações artísticas (exposições, performances, instalações e shows), tudo isso com a função de inserir as mulheres e transformar a sociedade através do âmbito da cultura.


Além de oferecer atividades práticas, como as oficinas, o MnV incentiva e contribui para a cidadania das mulheres através da vitrine cultural proporcionada ao público jovem feminino.


O MnV acontece anualmente, desde 2007, com duração de um dia.


Nas duas primeiras edições, foi realizado no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas. Em 2009, será realizado no Estação Cultural (Praça da Estação), no dia 17 de Outubro.


Atraindo, em sua última edição, um público de 500 pessoas ao longo do dia, e obtendo visibilidade nos principais veículos de comunicação de Juiz de Fora, o MnV se consolida como um importante espaço de cultura e reflexão na cidade, proporcionando intercâmbio de experiências entre homens e mulheres; entretenimento, através das diversas manifestações artísticas presentes no festival; e, principalmente, inclusão feminina, através tanto das oficinas, workshops e vitrines culturais oferecidas ao público, quanto através dos palcos, stands e varais, oferecidos às artistas.


No terceiro ano do MnV, as mulheres provam, mais uma vez, que são capazes de guiar seus automóveis, suas vidas, sua arte, suas bandas e seu próprio Festival.


Mulheres no volante
Sábado, 17/10, às 18h na Estação Cultural (Rua Halfeld, 235, Centro)
Ingressos: R$7 (meia) na Pocossô Mulé (Galeria Pio X, sala 301) ou no Studio B (R. Moraes e Castro, 814); R$12 no local do evento (com flyer) ou R$15 no local do evento (sem flyer)


sábado, 26 de setembro de 2009

O que fazer em JF?

Pois é. Existe até comunidade no Orkut com esse nome, "O que fazer em Juiz de Fora?". E a gente sabe que, de fato, tem hora que é meio díficil encontrar coisas interessantes para fazer por aqui. Se você também está cansado da "orla" (também conhecida como "circuito-fracasso") e nem pensa em pisar em lugares como Multiplace ou gastar seus reais nas noites sem-graça do Privilége, dê uma olhada nas nossas sugestões para passar o tempo em JF nos próximos dias:

Show da Matilda

A banda juizforana formada por Ju Stanzani, Bia Nascimento, Fabrícia Valle e Amanda Martins aposta em um repertório autoral e com versões para canções da "velha" e da "nova" MPB. De Chico Buarque a Monica Salmaso, um show da Matilda é sempre certeza de boa música. Nesse sábado, 26/09, elas tocam a partir das 22h no Mezcla. Já no dia 24 de outubro elas abrem o show de Maria Gadú no Cultural Bar.

ECO Performances Poéticas

Há mais de um ano as primeiras quintas-feiras do mês no Mezcla são dedicadas à poesia. O ECO traz, a cada edição, pelo menos quatro poetas de Juiz de Fora e região, que lêem seus textos de criação poética pra um público que, após o intervalo, também pode subir ao palco e participar do "Microfone aberto". A edição de outubro acontece no dia 1º, a partir das 20h e conta com a presença de Larissa Andrioli, Julio Polidoro, Lucas Soares e Daisy Aguinaga.

Lançamento do Caderno Encontrare

De dois em dois meses o Caderno Encontrare lança uma nova edição, com textos de prosa e poesia, além de ilustrações e fotografias. A 6ª edição será lançada no dia 8 de outubro, a partir das 22 horas no Café Muzik e vai ser animada pelos shows das bandas Cabra Cego e Bonança Trio e a discotecagem de Marcelo Castro (Silva Soul).

Show do Teatro Mágico

No dia 3 de outubro a banda Teatro Mágico traz para Juiz de Fora o show do disco “Segundo Ato”. A apresentação será no Cultural Bar, com abertura de Maíra Mageste e fechamento de uma das melhores bandas de JF, o Sambavesso.

Livro novo do Luiz Ruffato

Não gosta de MPB? Quer nem saber de gente lendo poesia na sua cabeça? Odeia o Muzik e mais ainda o Cultural? Então fique em casa lendo o novo livro de Luiz Ruffato, Estive em Lisboa e lembrei de você e concorde com Sérgio, o protagonista do romance, que afirma que "Juiz de Fora não conta" e é "o quintal de Cataguases". Está a venda lá na Livraria A Terceira Margem.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Seis sites sobre: Literatura de Cordel

“Preste atenção por favor
na história que vou contar
ela explica o que é cordel
grande manifestação popular.”
( Paulo Araújo )


Apresentada em formato de poesia e divulgada em folhetos ilustrados com o processo de xilogravura, a LITERATURA DE CORDEL ganhou esse nome pois é exposta em cordões estendidos em pequenas lojas de mercados populares, feiras, praças ou até mesmo nas ruas.

Esta literatura chegou ao Brasil trazida pelos portugueses na segunda metade do século XIX e foi aos poucos tomando espaço na cultura popular, principalmente no nordeste.E, essa forma de escrever influenciou alguns escritores brasileiros, como Ariano Suassuna, Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto.

A equipe do Geleia Geral selecionou 6 sites sobre aquilo que se chamou na França, Literatura de Colportage (mascate); na Inglaterra Chapbook, ou balada; na Espanha Pilego Suelto, em Portugal, Literatura de Cordel ou folhas volantes.


1. Academia Brasileira de Literatura de Cordel
Fundada em 7 de setembro de 1988, a ABCL contou com o apoio de um político que emprestou sua sala de comitê eleitoral para o presidente, o vice e o diretor cultural. O site reúne diversos artigos sobre a literatura de cordel, um elenco de publicações e de gravuristas, notícias sobre a produção de cordel e sobre os eventos da ABCL, colunas sobre o tema e uma loja.


2. Cordel Online
O site conta com notícias, artigos sobre o cordel, imagens e links para outros sites do mesmo tema.


3. Teatro de cordel
Site de César Obeid, conta com uma grande quantidade de informações históricas e textos de cordel.


4. Portal do cordel
Além de informações históricas, traz uma agenda de eventos de literatura de cordel, uma lista de cordelistas, entrevistas e downloads.

5. Casa Rui Barbosa - Literatura de Cordel
Site da Casa Rui Barbosa sobre seu acervo de literatura de cordel, atualmente, o maior da América Latina no assunto com mais de 9.000 folhetos.

6. Twitter: Poesia de Cordel
Fãs da literatura de cordel criaram um perfil no Twitter.

domingo, 13 de setembro de 2009

Os melhores livros que (ainda) não lemos


4. O Velho e o mar - Ernest Hemingway
Não sei exatamente o que me atrai neste livro. Não me lembro onde ouvi falar dele a primeira vez, muito menos de Hemingway. Só sei que, desde que isso aconteceu, ficou na minha cabeça de uma forma absurda e preciso muito ler, primeiramente pelo livro em si, depois pelo autor.
3. Os Lusíadas - Luís de Camões
Camões é Camões, e qualquer apaixonado por Literatura Portuguesa sabe disso e não nega. No entanto, nunca li Os Lusíadas. Mereço a morte, eu sei. Talvez isso resulte da minha resistência a epopeias, talvez seja simplesmente uma questão de prioridades. Mas agora é questão de honra!
2. Todos os nomes - José Saramago
Porque, obviamente, não podia faltar Saramago. Um dos últimos romances que ainda não li do autor, ele está aqui justamente porque está me esperando, na minha mesa, pronto pra ser lido. Mas, a faculdade não deixa. Além disso, minha (maldita) mania de ler a última frase do livro fez com que eu quisesse mais ainda, fiquei curiosa e daqui a pouco já vou começar a lê-lo, mesmo com vários outros mais importantes. Porque não consigo resistir, Saramago me atrai de uma forma absurda.
1. Ulisses - James Joyce
Uma brincadeira que corre no meio acadêmico é a de se medir o nível intelectual de alguém pelo fato de ter ou não ter lido Ulisses. Me lembro da primeira vez que ouvi falar deste livro: foi num filme, e depois me deparei com ele na Biblioteca Municipal, um calhamaço de quase 1000 páginas, capa verde com uma folha dourada e uma aura envolvente. Desde aquele dia, meu sonho é ler Ulisses. Só sonho, porque na realidade não tenho tempo nem creio que vá conseguir dar conta do recado. Mas ficam a vontade e o plano de lê-lo nas férias - de dezembro a fevereiro, é a isso que vou me dedicar.

4. Fausto - Göethe
Desde que li Os sofrimentos do jovem Werther que me prometi ler Fausto. O motivo inicial devia não devia ser mais do que o autor, mas o interesse pela obra em si veio depois e ainda alimento o desejo. Uma fantasia de encontrar-me novamente com a maneira de Göethe, dramático e melancólico, embora pense que essa, consiga superar a primeira.
3. Último round - Júlio Cortázar
Na verdade, eu não tenho motivos para escolher esse entre tantos de Cortázar, que eu ainda não li, e me atiçam a curiosidade, mas deve ser algo ligado ao fato de que esse foi a estrada para conhecer o autor... é, acho que deve ser isso.
2. Anna Karenina - Tolstói
Mais pelo autor do que propriamente pela obra, e mais do que esse papo de morrer-sem-ler, acho que meu caso com esse livro é o título, acho linda essa sonoridade. O livro divide opiniões e isso me deixa muito intrigada.
1. Mulheres - Charles Bukoswki
Já comecei a ler em e-book inúmeras vezes, mas não é fácil concluir um livro dessa extensão frente do computador. Bukowski me atrai, principalmente, pela época que ocupa na literatura. Ainda não li porque me falta tempo, só isso... antes do fim do ano, eu me prometo!

4. O vermelho e o negro - Stendhal
Já perdi as contas de quantas vezes comecei a ler esse livro. Mas sempre acontece alguma coisa e sou forçada a abandonar a leitura. Quando retomo, acabo tendo de voltar ao início novamente e nunca consigo terminar. Uma vez, dando uma lida em uma comunidade do orkut chamada "Procrastinação Literária", descobri que ele é o campeão da meia-leitura. Ou seja, um monte de gente começa, mas acaba largando. Bom, um dia eu leio. Um dia.
3. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios - Marçal Aquino
Esse é só mesmo por causa do título genial.
2. Panamérica - José Agripino de Paula
Todo mundo fala desse bendito livro. Caetano Veloso, por exemplo, tece elogios absurdos em Verdade tropical. Engraçado que eu nunca o vi em lugar nenhum, nem em livraria, nem em biblioteca.
1. Medo e delírio em Las Vegas - Hunther S. Thompson
Para não me alongar muito, vou resumir: existe uma conspiração mundial que me impede de ler esse livro. Mas eu preciso lê-lo. Preciso.

sábado, 5 de setembro de 2009

Muito além do oeste

Zumbis, tiros e metanarrativa marcam o primeiro romance de Antônio Xerxenesky


“Consciência e metaficção são sinônimos”, escreveu Daniel Galera em seu Twitter há uns dias atrás. E essa constatação do escritor paulista aponta para uma característica bastante recorrente na produção literária contemporânea. Se por um lado brotam por aí livros que nada mais apresentam do que a cópia da cópia do que já foi escrito há décadas atrás, por outro lado surgem outros que procuram escapar de caminhos já exaustivamente trilhados na literatura. E muitas dessas obras têm encontrado percurso alternativo na metaficção, se estruturando sobre seus mecanismos ficcionais e fazendo da construção do texto a própria matéria da narrativa
Mas a metanarrativa também não é aposta certa, pois essa estratégia, por si só, não garante qualidade nem originalidade. É necessário, além do bom uso da metaficção, uma boa história a ser contada. E são justamente esses dois pontos os grandes acertos de Areia nos dentes (Não Editora, 2008).
Classificar o romance de estréia do gaúcho Antônio Xerxenesky não é tarefa das mais fáceis. A primeira definição que talvez possa saltar à vista – um faroeste com zumbis – é simplista demais para descrever a empreitada assumida pelo autor. É um faroeste? Sem dúvidas. Tem zumbis? Sim. Armas, tiros, mortes? Também. Mas Areia nos dentes vai além.
Em linhas gerais, o livro conta a história da rivalidade entre os Ramirez e os Marlowes, habitantes da cidade de Mavrak, e é permeado por todo o ódio e intriga típicos de tramas sobre disputas de clãs. E, uma vez que a história é um faroeste, claro que não poderiam faltar armas, tiros, chapéus, índios, um saloon e outros clichês inerentes ao tema. Mas o tour de force do romance está na história paralela: um homem que escreve justamente sobre esse confronto entre as duas famílias, em um texto que, assumindo sua própria condição de ficção, narra não só a história dos Marlowe e dos Ramirez, mas também as etapas e dificuldades da construção dessa narrativa, desde a dúvida de como iniciar o relato, até o vírus que invade o computador do narrador-personagem. E, além da ascendência desse narrador – revelada aos poucos ao longo do livro –, há outro traço que o liga aos personagens de Mavrak: os percalços das relações entre pai e filho, que são desenvolvidos no romance em perspectivas distintas.
Os recursos gráficos utilizados por Xerxenesky também são grandes acertos no livro, especialmente no capítulo que tem a estrutura de um texto de teatro – com rubricas como “[Samuel Marlowe cospe no chão]” e “[Juan vai ao banheiro vomitar]” – e na sequência na qual uma perseguição a cavalo divide a página em duas colunas, cada uma mostrando os pensamentos de um dos personagens envolvidos.
Xerxenesky encontrou na hibridização entre o faroeste da década de 60 e a metanarrativa que caracteriza parte da literatura pós-modernista, uma ótima maneira de contar uma história sobre um pai, um filho e alguns zumbis. Estranho, não? Mas em um momento no qual surgem tantos escritores que apenas repetem fórmulas já desgastadas e os prêmios literários – salvo raras exceções – coroam os mesmos autores de sempre, um romance esquisito e corajoso como o de Xerxenesky sem dúvida chama atenção. Classificar Areia nos dentes é difícil sim. Mas lê-lo é fácil, fácil. E bastante divertido também.
*


Antônio Xerxenesky é um porto-alegrense nascido no fim de 1984. Publicou o livro de contos Entre (Fumproarte/Ed. Movimento) e outras narrativas curtas em antologias e revistas. Seu conto "O desvio" (que integra a antologia Ficção de polpa, vol. 1) foi adaptado para a tevê por Fernando Mantelli em 2007. Areia nos dentes é seu primeiro romance.

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Areia nos dentes
Antônio Xerxenesky
Não Editora
144 páginas
R$ 25,00

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(quer ler um capítulo do livro? clica aqui)
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domingo, 23 de agosto de 2009

O timbre da verdade

Aqui no Geléia Geral, Anderson Pires já pode se considerar de casa. Ele já apareceu no blog em duas ocasiões distintas: em uma entrevista sobre o ECO Performances Poéticas – evento do qual é um dos organizadores – e também com uma reunião de quatro de seus poemas.

Para quem ainda não conhece a poesia do Anderson, fica aqui a dica: vale muito a pena conhecer. Ao contrário do que talvez poderia se esperar na literatura de um cara que é ligado à teoria – Anderson é doutor em Letras e professor da UFJF e do CES -, sua poesia é diretamente conectada ao mundo real.

Nunca abrindo mão de um lirismo quase cínico, talvez herdado de Manuel Bandeira ou, quem sabe, de Bob Dylan, os textos de Anderson podem ser lidos como uma espécie de reação ao caos. Ou como a atitude de alguém, que discordando com a direção para a qual vê todo mundo seguindo, simplesmente toma nas mãos o volante e faz uma curva de 180 graus, enquanto no rádio um rock dos anos 60 anuncia o fim do mundo no último volume.
O que está impresso nos versos livres de Anderson são as coisas que sabemos existem não porque alguém nos contou, mas porque as vemos todos os dias bem na nossa frente: da solidão dos centros urbanos ao rock & roll, passando pela lei antifumo e, claro, pelas idas e vindas do amor.

Dessa vez, Anderson nos enviou por e-mail esse lindíssimo “Noites brancas”. Não deixem de ler. E de reler. E de reler outras e outras vezes.




Noites brancas

Uma vez perdido na selva escura
No meio da vida – o caminho

Solitário
Sem sono e sem sonhos

Releio toda a minha contracultura

Maiakóvski sacou o lance antes de acontecer
E desde o início os inconformados partiram:
Suicídios
Overdoses
Doenças fatais sexualmente transmissíveis.

Acendo um cigarro
O funcionário do Ministério da Saúde aparece
Mostra por A mais B
Como tem gastado para tratar gente como eu
Mas nós dois sabemos: estamos mentindo
Ele me mostra o jornal do dia
È proibido fumar em São Paulo... E no Vaticano também!

4 de agosto de 2009
Juiz de Fora
Neblina e uma chuva fina

Os adúlteros fecham os portões sorrateiros
Os cães latem quando atravessam a rua

Os puritanos vigiam cada passo
Principalmente quando estão dormindo

E nós...
Ainda estaremos puros para amar
Não precisaremos confessar nossa culpa
Nem nos vangloriarmos de nossa honra
Pois não há nada no céu
Além de estrelas, satélites e seres desconhecidos.




*



Obs: O título desse post é uma referência a um verso de "Trovadores Elétricos", poema de Anderson Pires que você pode ler clicando aqui.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Blog nosso de cada dia.

O mundo dos blogs é cada vez mais uma ferramenta para as pessoas que têm rabiscos próprios. Nem sempre um diário (como sugeriu a professora doutora Luiza Lobo, sobre os blogs femininos e que gerou um grande reboliço entre as blogueiras, mas isso é assunto para um próximo post) e nem sempre com notícias de utilidade pública, os blogs assumem um papel muito mais importante do que esse: o de revelar novos talentos, além, é claro, de servir de meio para que o escritor em questão se liberte.

Pensando no enorme conteúdo que os blogs (ou seus autores) oferecem e na pouca (ou nula) divulgação dos blogs fazendo com que muita gente perca preciosidades, a equipe do GELEIA GERAL fez uma listinha básica de alguns blogs interessantes. Desfrutem!


ENTER
- Antologia Digital (Org. Heloisa Buarque de Holanda)

domingo, 9 de agosto de 2009

Baião de Três.

Santo de casa não faz milagres, marketing pessoal nem nepotismo. Mas são nossos e estão aqui.

schöner

vem cá
senta aqui comigo
joga essas penas pro chão
cuidado pra não se sujar com a tinta
senta e diz se há
no mundo algo mais belo


vem cá
vamos sentar aqui no chão
empurra estes livros pra lá
não, com estes tome cuidado
coloque na mesa
agora me diz se há
no mundo coisa mais bela


vem cá
vamos tomar um café
que é pra espantar esse sono
pra gente poder conversar
esquece o que a gente diz
de Borges e García Márquez
joga a Clarice pra um lado
que eu jogo o Saramago pro outro
só me diz se há
no mundo coisa mais bela
que esquecer esses caras
e escrever seus próprios versos
(mesmo que eles não mudem nem mesmo
a sua própria vida)

(Larissa Andrioli)

* * *

Rascunho

... e o lápis correndo agora no papel
são, em verdade, meus lábios
traçando aos poucos nos seus cabelos
detalhes no plano do nosso desejo.
E dizendo:- Ninguém predestina o desencontro,
há sempre outra página: o epílogo.
Vem comigo
ser mais que a possibilidade do impossível,
fazer o interdito dos sentidos
surgir e pertencer
a nós.

(Laura Assis)

* * *
O direito ao grito

É estranho entender aos que fazem algo na espera de algo mais. Um favor, uma bondade, um carinho, tudo isso esperando o que poderiam lhe dar em troca. Não, eu não quero isso. Também não quero que me façam nada esperando ter algo em troca. Já existe um nome pra isso? No amor não é diferente, estranho seria se fosse. Amam esperando um amor de volta. Na verdade as pessoas temem o amor, aquela dor de amor. Conversando com um amigo, já de maior idade, ele me contava de suas paixões. E eu gostava de saber. Ele contava com um brilho no olhar, e embora tivesse sofrido tanto, foi uma paixão arrebatadora daquelas que nos deixam sem rumo mesmo. As paixões não foram minhas companheiras, creio que nem o serão, pois, se paixão é meio amor e eu nunca soube amar pela metade.
Mas, não foi para falar em paixões que hoje me sentei de frente ao computador, na verdade eu estava sufocada. Sufoco-me diariamente, mas ontem... ontem foi diferente e somente hoje eu senti o alívio de ter novamente minha garganta livre. Eu poderia até gritar, mas não gritei. É que eu me sinto pressionada a fazer o que parece ser o tubo único de uma vida. Aquilo de todos precisam fazer e eu não posso fugir à maioria. Oh, como é cruel! E realmente eu queria ter nas Letras um instrumento de trabalho (uma vez que já é um instrumento na vida) sem precisar ser professora. Por fim, grito.

(Pamella Oliveira)

domingo, 2 de agosto de 2009

TOP 5 - Mulheres de José Saramago


"Muito de homens se tem falado, alguma coisa de mulheres, mas quando assim foi, como de passageiras sombras ou às vezes indispensáveis interlocutoras, coro feminino, de costume caladas por ser grande o peso da carga ou da barriga, ou então mães dolorosas por várias razões, um filho morto, outro valdevinos, ou filha desonrada, é o que não falta. De homens se continuará a falar, mas também cada vez mais de mulheres, (...) as razões são outras, ainda se calhar imprecisas, e é que os tempos vêm aí."
Levantado do Chão, p.p. 183-184


Qualquer leitor de José Saramago que tenha tido contato com mais de dois livros dele pode constatar um aspecto importante da obra do escritor: as personagens femininas. As mulheres de Saramago têm sempre uma presença marcante, chegando muitas vezes a representar o livro do qual fazem parte. Todo TOP 5 é pretensioso e o que está aqui registrado não passa de uma opinião extremamente pessoal (mas, ainda assim, compartilhável) de uma assídua leitora do escritor português sobre um universo enorme mas ainda pouco explorado (estas personagens que aqui estão foram selecionadas entre oito romances e dois contos de Saramago*). E quem ainda não leu os que aqui se encontram, fica a dica.

"Quando, uns anos mais tarde, trouxeram João Mau-Tempo para Lisboa (...), já Sara da Conceição se finara, rodeada pelo riso das enfermeiras, a quem a pobre tonta, humildemente, pedia uma garrafa de vinho, imagine-se, para um trabalho que tinha de acabar antes que se fizesse tarde."
Levantado do Chão, p. 113


5 - Sara da Conceição (Levantado do Chão)
Os pais de Sara da Conceição não queriam que ela se casasse com Domingos Mau-Tempo, que tinha fama de bêbado e que, nas palavras de Laureano Carranca, acabaria mal. Mas a teimosia de Sara foi a ponto de jurar que, "se não casasse com Domingos Mau-Tempo, não casaria com ninguém". Para terminar a guerra familiar e conseguir o que queria, num dia de Maio Sara atravessou o campo, deitou-se com Domingos no meio do trigo alto e, no caminho de casa, parou num riacho para larvar-se porque o sangue não parava de escorrer-lhe pelas pernas. Assim, Sara apareceu grávida e, com esse argumento derradeiro, casou-se. Nos anos que antecederam o suicídio do marido, teve cinco filhos, peregrinou diversas vezes e, em todas as terras em que morou, teve de ir às tabernas buscar o marido. Largou dele algumas vezes também, procurou o pai, escondeu-se à casa de vizinhos. Foi nisso que ele retornou de suas andanças, exigiu a volta dela e, não conseguindo reunir a família, procurou uma oliveira, atou a corda e se enforcou. A morte do marido voltará a atormentar Sara no final de sua vida, quando começar a sonhar que precisa limpar o vergão no pescoço do marido com vinho, para tê-lo de volta, o que "nem por sombras quereria quando acordada, mas no sonho é isto". Um dia, não tendo voltado das suas caminhadas noturnas, foram dar com ela a falar do marido como se estivesse vivo. É internada e morre ainda querendo reviver o marido.


"(...) só falta que Jesus, olhando o corpo abandonado pela alma, estenda para ele os braços como o caminho por onde ela há-de regressar, e diga, Lázaro, levanta-te, e Lázaro levantar-se-á porque Deus o quis, mas é neste instante, em verdade último e derradeiro, que Maria de Magdala põe uma mão no ombro de Jesus e diz, Ninguém na vida teve tantos pecados que mereça morrer duas vezes, então Jesus deixou cair os braços e saiu para chorar."
O Evangelho Segundo Jesus Cristo, p.p. 359-360


4 - Maria de Magdala (O Evangelho Segundo Jesus Cristo)
Bem antes de Dan Brown ficar popular por colocar um filho de Jesus na barriga de Maria de Magdala, estava Saramago unindo os dois. Trabalhar uma personagem já existente é algo complicado; ainda mais no caso desta mulher, que faz parte da história mais contada pela humanidade e durante tanto tempo foi rebaixada. Em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Saramago não adere à linha que defende que Maria de Magdala não era prostituta; esse aspecto bíblico é mantido, mas Maria, ao encontrar Jesus, com os pés feridos de caminhar, abriga-o em sua casa e abre mão de todos os homens que vêm procurá-la para cuidar daquele quase garoto. Durante uma semana, Jesus fica na casa dela e ali eles criam um vínculo que permanece após a partida dele ("Aquilo que penduraste na porta para que nenhum homem entrasse, vais retirá-lo, Não poderia ter dentro de casa dois homens ao mesmo tempo, Isso que quer dizer, Que tu te vais, mas que continuas aqui.") e dura até a crucificação, passando pela escolha dos discípulos (ela é a primeira a ser chamada por Jesus). Numa altura do romance, vem uma frase significativa: "As mulheres têm uns outros modos de pensar, talvez seja por o nosso corpo ser diferente, deve ser isso, sim, deve ser isso."

"Tem medo de mim, perguntou a morte, Inquieta-me, nada mais, E é pouca cousa sentir-se inquieto na minha presença, Inquietar-se não significa forçosamente ter medo, poderá ser apenas o alerta da prudência, A prudência só serve para adiar o inevitável, mais cedo ou mais tarde acaba-se por se render, Espero que não seja o meu caso, E eu tenho a certeza de que o será."
As Intermitências da Morte, p. 194


3 - Morte (As Intermitências da Morte)
E no dia seguinte, ninguém morreu. Com esta frase, que inicia o romance, Saramago também começa a apresentar, levemente, a personagem principal da história. A morte (com letra minúscula, porque "a Morte é uma cousa que aos senhores nem por sombras lhes pode passar pela cabeça o que seja, vossemecês, os seres humanos, só conhecem [...] esta pequena morte quotidiana que eu sou", p. 112) é humanizada de forma incrível pelo autor. E mais que humanizada, tornada mulher. A transformação da morte é, no mínimo, surpreendente. Tudo começa com uma carta que envia a um músico para avisá-lo que proximamente irá morrer (método adotado por ela depois de ficar algum tempo sem matar de todo) retorna. Intrigada, a morte a envia de novo. Mais uma vez, a carta volta. Então, ela descobre: enganou-se, a data em que o homem devia morrer já havia passado e ela não o matara. Caso inédito. A partir daí, o livro enfoca as tentativas da morte de alcançar o músico e finalmente matá-lo. Mas, ao se transfigurar numa mulher para se aproximar dele, eles acabam se envolvendo de uma forma profunda e comovente.

"A mulher do médico levantou-se e foi à janela. Olhou para baixo, para a rua coberta de lixo, para as pessoas que gritavam e cantavam. Depois levantou a cabeça para o céu e viu-o todo branco, Chegou a minha vez, pensou. O medo súbito fê-la baixar os olhos."
Ensaio Sobre a Cegueira, p. 310


2 - Mulher do Médico (Ensaio Sobre a Cegueira)
O fato de uma cidade, um país e talvez todo o mundo encontrarem-se cegos, exceto por uma pessoa já a faz merecedora de atenção. Quando essa pessoa é uma mulher, a atenção deve ser maior ainda. Obviamente, nada numa obra de Saramago está lá por acaso, muito menos isso. Talvez ele esteja valorizando a mulher, talvez alertando-a. É inegável, no entanto, que alguma coisa ele quis dizer ao criar uma personagem como a Mulher do Médico, uma mulher que demonstra, mesmo em seus momentos de maior fraqueza (como seu desespero por não ter dado corda no relógio e, portanto, estar agora desprovida de uma medida de tempo) uma força incrível. Ela não é só o pilar da relação com o marido, mas também protege e cuida de todos os outros cegos de sua camarata, que depositam nela uma confiança extraordinária, porque enxergam nela algo sólido, ainda que não saibam que ela não está cega (como a Rapariga dos Óculos Escuros demonstra em uma só frase, ao ver o desespero da Mulher do Médico com a situação do relógio: "Se a senhora, que é tão forte, está a desanimar, então é porque não temos mesmo salvação".) Sem dúvida uma das mais marcantes personagens femininas de José Saramago, talvez chegasse mesmo a ser a maior de todas, não fosse ter saído da cabeça do mesmo escritor uma mulher que não somente não é cega, como enxerga até demais.

"O grito de Blimunda, terceiro, e sempre o mesmo nome, não foi agudo, apenas uma explosão sufocada, como se as tripas lhe estivessem sendo arrancadas por gigantesca mão, Baltasar, e ao dizê-lo compreendeu que desde o princípio soubera que viria encontrar deserto este lugar. As lágrimas secaram-se-lhe subitamente como se um vento escaldante tivesse soprado de dentro da terra."
Memorial do Convento, p. 330


1 - Blimunda (Memorial do Convento)
Blimunda tem um segredo. Ao conhecê-la, Baltasar Sete-Sóis sabe que ficará ao lado dela dali pra frente, mas se depara com os mistérios da companheira. O que a levaria a comer um pão, com os olhos fechados, todo os dias, antes de se levantar? E esse segredo de Blimunda, que logo é revelado, vai desenvolver a narrativa do livro de forma belíssima. Não fosse pela estranha capacidade da mulher de, quando em jejum, enxergar o interior dos corpos, a passarola do padre Bartolomeu Lourenço não poderia voar, já que se move a vontades, e é Blimunda quem vê a vontade das pessoas, essa nuvem fechada que está dentro de todos nós e entre a vida e a morte. Blimunda Sete-Luas, como é batizada após unir-se formalmente a Baltasar ("Tu és Sete-Sóis porque vês às claras, tu serás Sete-Luas porque vês às escuras, e, assim, Blimunda que até aí só se chamava, como sua mãe, de Jesus, ficou sendo Sete-Luas", p. 56), não é só uma personagem forte; ela é, acima de tudo, alguém que prende o leitor ao livro, por sua sensibilidade. Arrisco mesmo o palpite de que seria a personificação de todas características, afloradas ou latentes, explícitas ou não, das mulheres às quais Saramago deu vida, até ali e a partir dali.


*
SARAMAGO, José. A caverna. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
______________. A jangada de pedra. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.
______________. A viagem do elefante. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
______________. As intermitências da morte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
______________. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
______________. Levantado do chão. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1980.
______________. Manual de pintura e caligrafia. São Paulo: Companhia das Letras, 1977.
______________. Memorial do convento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1982.
______________. O conto da ilha desconhecida. São Paulo: Companhia das Letras, 1997
______________. O evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.

domingo, 26 de julho de 2009

Retalhos de Conversação

I
Durante muitos anos se me acontecia acordar antes dos outros pensava que o bater do relógio de parede na sala era o coração da casa, e ficava horas e horas de olhos
abertos quieto no escuro a ouvi-la viver na certeza de que enquanto o pêndulo dançasse de um lado para o outro
sístole diástole, sístole diástole, sístole diástole
nenhum de nós morreria.

II
Quantas estradas um homem deve andar
Antes de poder ser chamado de homem?
Quantos mares uma gaivota de navegar
Antes de dormir na areia?
Quantas vezes as balas de canhão têm que voar
Antes de serem banidas para sempre?
Quantos anos uma montanha pode existir
Antes de ser levada pelo mar?
Quantos anos algumas pessoas podem viver
Antes de serem livres?
Quantas vezes um homem pode virar o rosto
E fingir que não vê?
Quantas vezes um homem tem que olhar para cima
Antes de poder ver o céu?
Quantos ouvidos um homem deve ter
Antes de poder ouvir as pessoas chorando?
Quantas mortes terão de ocorrer até que ele saiba
Que já morreram pessoas demais?

III
Um dia a morte devolverá meu corpo,
minha cabeça devolverá meus pensamentos ruins
meus olhos verão a luz da perfeição
e não haverá mais tempo.

IV
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

V
As coisas que te cercam, até onde
alcança a tua vista, tão passivas
em sua opacidade, que te impedem
de enxergar o (inexistente) horizonte,
que justamente por não serem vivas
se prestam para tudo, e nunca pedem

nem mesmo uma migalha de atenção,
essas coisas que você usa e esquece
assim que larga na primeira mesa -
pois bem: elas vão ficar. Você não.
Tudo que pensa passa. Permanece
a alvenaria do mundo o que pesa.

VI
Restam estes papéis. Resta este desenho novo, nascendo sem que eu o tivesse aprendido: a todo o momento, mesmo quando o interrompo, oferece-me a voluta principiada,
e demonstra, a cada suspensão, a probabilidade de não ter fim. Quando assento o aparo na curva interrompida de uma letra, de uma palavra, de uma frase, quando
prossigo dois milímetros adiante de um ponto final ou de uma vírgula, limito-me a prosseguir um movimento que vem de trás: este desenho é, ao mesmo tempo, o código e
a decifração. Mas o código e a decifração de quê?

VII
Poetar é como o trabalho de um mecânico de precisão. A poesia deve fazer tudo quanto possa para igualar-se às audácias da matemática. E então, de novo: como os
alquimistas, deve esforçar-se para conseguir investigações e fórmulas raras, chegar a ser ela própria uma alquimia lírica original.

VIII
Não, não é bem isso.

domingo, 19 de julho de 2009

Férias?

Férias de alunos de Letras normalmente são compostas de livros (além de outras coisas que não precisam ser mencionadas). Então, três membros da equipe se dispuseram a traçar e compartilhar seu "plano de férias".

Larissa Andrioli - Nem tudo são espinhos. Depois de 4 meses de noites mal dormidas, Homero e Saussure, as férias chegaram. E nas últimas semanas de aula foram se acumulando no meu quarto livros que eu pretendia ler nesse hiato. Alguns da Biblioteca, outros do Gilvan (valeu, Gilvan!), outros meus mesmo. Uma coisa que sempre me preocupou foi nunca ter lido Shakespeare; então, coloquei Hamlet ali, mas nem abri ainda. Na mesma situação se encontram Noites brancas, O Amor nos tempos do cólera, Laranja mecânica e Admirável mundo novo. Consegui me entregar um pouco ao Sérgio Sant'Anna e li O sobrevivente, que achei muito interessante, principalmente o conto "Frederico"; resta na lista O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro. Não avancei muito em Crime e castigo, apesar de estar gostando bastante. Culpa de José Saramago, que em A caverna conseguiu superar todas as minhas expectativas, e em Manual de pintura e caligrafia me deu uma surra (seu A paixão segundo G.H.). Continuo na minha saga para ler a obra completa dele, e os próximos da lista são O ano da morte de Ricardo Reis e Levantado do chão, que acabei de começar. Resolvi conhecer Lobo Antunes. Peguei O Esplendor de Portugal e me assustei um pouco com sua pontuação incomum (mais ainda que a do Saramago) e com sua narrativa, mas peguei o ritmo e estou achando bem interessante. Minha aposta pra esse resto de férias, agora ocupado também por Friedrich e outros teóricos, fica nisso: avançar na saga saramagueana, bem como na dostoievskiana e conhecer, finalmente, Agualusa em Um estranho em Goa. Darei conta? Não creio, mas vou tentar.

Laura Assis - Na verdade, meu plano de férias inexiste, simplesmente porque não tenho férias. Ok, não tenho aulas esse mês, mas os trabalhos do mestrado têm que ser entregues na segunda semana de agosto, então subentende-se que a única finalidade das férias é fazer os trabalhos. Mas como sou desobediente, resolvi me dar uns dias de férias assim mesmo e fui para FLIP. E, como vocês vão perceber, todas as minhas leituras mais recentes estão diretamente ligadas a essa viagem.
Já terminei o período lendo O filho eterno, do Cristovão Tezza, um dos melhores livros que li nos últimos tempos. Me surpreendi principalmente com as escolhas estéticas do autor. Dentro do tema sobre o qual ele se propôs a escrever, a opção por valorizar mais a ação psicológica do que os fatos em si foi muito acertada. Já com O sol se põe em São Paulo, foi bem diferente. Há tempos me sinto em dívida com Bernardo Carvalho, nunca havia lido nada dele. No entanto, confesso que fiquei bem decepcionada com esse livro. Estória boba e mal amarrada, parece que o autor começou a escrever planejando um grande livro, mas se perdeu e escreveu a metade final de qualquer jeito. De qualquer maneira, darei a Bernardo uma segunda chance. Retomo amanhã a leitura de O filho da mãe. Falando em amanhã, lembrei que hoje terminei Dois irmãos, bom livro do Milton Hatoum. Falta alguma coisa ali e eu não sei dizer exatamente o que é. A leitura é sim agradável, mas tem algo de anacrônico naquela trama, naquele modo de narrar.
Outro livro que tenho lido, é Rilke shake, livro de estréia de Angélica Freitas. Poesia nova, bem humorada, quase subversiva, como nos versos do poema “Estatuto do desmallarmento”, um dos meus preferidos: “minha senhora, tem um mallarmé em casa? / você sabe quantas pessoas morrem por ano / em acidentes com o mallarmé?”
E ainda antes do fim das “férias”, pretendo ler L’Invité Mystère, do Grégoire Boullier. Provavelmente não vai dar tempo, mas não custa tentar. Ah, e tem também Leite derramado do Chico Buarque, que preciso reler. Mas aí nesse caso é só trabalho mesmo. E que trabalho...

Pamella Oliveira - Eu comecei a fazer um plano de férias já no início do ano quando percebi que não teria muito tempo durante o mesmo. Então, comecei por alguns que julgava mais importante, mas que acabaram sendo eliminados mais tarde. No fim das contas, quando me vi tendo que pegar os livros que me interessavam realmente e que eu pudesse ler no meu, relativamente, curto período de férias, a lista ainda era enorme! Por uma sorte do destino, achei os mais difíceis que eram os livros do Chico Buarque: Estorvo, Leite derramado e Benjamin, e, acredito que eu não precise ter um porquê pra ler Chico Buarque. Também listei um que me deixava curiosa por ter sido um dos principais livros da geração Beat, coisa que me interessa muito, que é o On the road do Jack Kerouac, que eu achava que seria difícil de achar, e não foi. Ainda bem. Mas, em compensação, um que muito me interessava mas era impossível-de-encontrar-em-uma-biblioteca-pública: Pergunte ao pó, aquele mesmo que Bukowski chamou de "ouro no lixo" quando o encontrou, o motivo desse livro é que John Fante é uma pessoa que me chama atenção. O evangelho segundo Jesus Cristo do cara que nos inspirou nesse post: José Saramago, porque eu ouvi dizer uma vez que, depois desse livro, alguém que já tinha uma espécie de fé duvidosa deixaria de ter e mudaria completamente para o lado dos ateus, quis experimentar. Também acredito que uma pessoa que não pode morrer sem ler Jorge Luis Borges, então peguei O elogio da sombra que muito me encheu os olhos. Até aqui não tinha nada que eu já conhecesse a fundo, então eu peguei Doze contos peregrinos do meu sempre querido Gabriel García Márquez, porque era um dos famosos dele e que constavam na minha lista de ausência ainda, e se eu não lesse nada dele me sentiria incompleta. Fiquei frustrada por não achar Onde andará Dulce Veiga? do ilustre Caio Fernando Abreu que tem até versão cinematográfica, porém também muito difícil de encontrar, e é um da minha lista de férias que eu não vou conseguir ler. E, por último, (a citar, uma vez que a lista é bem maior) Romance negro e outras histórias do Rubem Fonseca, porque tenho boas lembranças dele, e lembranças são sempre ótimas referências.

domingo, 12 de julho de 2009

Sérgio Sant’Anna e o texto tatuado

Mesmo com a polêmica que circundou a iniciativa, o projeto Amores Expressos sobreviveu e os livros – escritos por diferentes autores que passaram um mês nos mais distintos lugares do planeta – estão sendo aos poucos lançados.
O primeiro foi Cordilheira, de Daniel Galera, sobre o qual inclusive já escrevi por aqui. Depois veio O filho da mãe, de Bernardo Carvalho e tudo indica que o próximo será O texto tatuado, de Sérgio Sant’Anna, que teve um capítulo publicado na Granta BR número 4 e do qual transcrevo aqui um trecho:

Eu estava sentado numa mesa de fundos do bar A dançarina. Gostava de observar as pessoas na penumbra e achava bonito e misterioso como as luzes multicores do letreiro e da figura da dançarina da fachada incidiam indiretamente no interior do bar. A dançarina parecia ter sido inspirada numa espanhola, ou numa cigana, ou uma mistura disso, ou nada disso. O ritmo de seus movimentos era sincopado, regularmente ela aparecia com a saia esvoaçante deixando ver suas coxas, admiráveis, azuladas, vermelhas, prateadas...
O rapaz se aproximou tão sorrateiramente de minha mesa que foi como um espectro surgindo de lugar nenhum. Era elegante de corpo, magro, algo pálido, sinuoso, bonito, embora seus cabelos amarrados num rabo de cavalo já correspondessem a um modelo antigo. Mas era o tipo de jovem que teria a seus pés as garotas mais interessantes, ou velhos depravados. Ou os deuses a seu serviço, se quisesse escrever poesia. Também poderia deslizar por um palco, fazendo o papel que pedissem dele, até mesmo o de Hamlet, sem solenidade, sem deixar de ser ele mesmo. Ou vagar pelas ruas mais tortuosas de Praga, ou pelas margens do rio, para conseguir drogas a qualquer custo.
Sim, eu adivinhava seus braços roxos sob as mangas compridas de uma camisa de cor verde clara, que parecia caminhar para cor alguma, ajustada a seu corpo e enfiada para dentro da calça larga, amarrada por um cordão grosso.
Meu coração bateu mais forte e empalideci, porque li no jovem o seu futuro. Seria mais um, desde muitos séculos, a atirar-se nas águas do Vlatava, sem ter medo, já indiferente, de certa forma já morto antes do salto.
Do mesmo jeito que, agora, não parecia desesperado, quando me disse, em inglês:
– Por Deus, não me mande embora antes de ouvir o que tenho a lhe propor.
– Não estou interessado em nada – eu disse.
– Nem mesmo fragmentos de um texto desconhecido de K., tatuados no corpo de minha irmã gêmea nua?

Tem mais coisa na revista, mas ficaria inviável publicar aqui, é um capítulo grande. Esse é a passagem inicial. Por enquanto o que dá para perceber é que Sant’Anna parece continuar seguindo os rumos da metaficção: o narrador/protagonista se chama Serge e é um escritor. E, pelo jeito, o romance é justamente sobre literatura. E o resto é esperar para ler.
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domingo, 5 de julho de 2009

Dos demais Concursos...

domingo, 28 de junho de 2009

Macunaíma e a infidelidade

por Wallace Andrioli Guedes*


Vou começar esse texto com uma lembrança pessoal: estava no terceiro ano do Ensino Médio, e, naquela época, o livro Macunaíma, de Mário de Andrade, estava entre as obras exigidas para o vestibular da UFJF. Me recordo perfeitamente do meu professor de literatura de então, em sua aula, exibindo o filme homônimo, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, e comentando as cenas que iam surgindo na TV. Na realidade, ele não chegou a exibir o filme completo, acelerando a imagem em momentos que julgava pouco importantes, simplesmente comentando que, no livro, aquilo ocorria de forma diferente, mas como os responsáveis pelo filme não tinham dinheiro na época para adaptar a rapsódia modernista ao pé-da-letra, eles simplesmente criaram aquelas soluções. No fim, aliás, essa era a impressão que o professor buscava passar: Macunaíma-filme era uma obra tosca, mal-feita, uma adaptação ruim do texto original - hoje me pergunto o porquê dele ter exibido o filme em sala de aula, já que o detestava tanto, e só posso concluir que o motivo foi a velha ideia de que assistir a uma adaptação de uma obra literária para o cinema substitui o ato de ler o original. Enfim, naquela época, não poderia nem sonhar que, um dia, teria tal filme como meu objeto de estudo na graduação e no mestrado.

Uma outra pequena história, tão significativa quanto a primeira: já no final da minha graduação, comentando com um colega de curso sobre o filme Macunaíma, tive de ouvir o comentário de que Mário de Andrade deveria estar "se revirando em seu túmulo" por causa daquela adaptação.

Não pretendo entrar aqui no mérito de como analisar uma obra fílmica adaptada de um original literário, até porque não domino profundamente o assunto, mas me parece que, decididamente, estas duas pessoas citadas acima precisam urgentemente repensar a forma como enxergam a relação entre cinema e literatura. E, quem sabe, precisam também rever, como novos olhos, o Macunaíma de Joaquim Pedro de Andrade.
Lançado nos cinemas brasileiros em 1969, num momento em que a ditadura militar embrutecia-se (o AI-5 havia sido instituído em dezembro de 68), Macunaíma foi, provavelmente, o acontecimento cinematográfico daquele ano no país. Seu diretor, Joaquim Pedro, era um cineasta proveniente do Cinema Novo (formava, com Glauber Rocha e Leon Hirszman, a chamada "santíssima trindade" daquele movimento), acostumado com a linguagem documental (é de sua autoria o clássico documentário Garrincha, Alegria do Povo), e não foi com pouca surpresa que sua incursão pelo universo de Mário de Andrade foi recebida. Surpresa, aplausos, prêmios e muito sucesso de bilheteria. Com Macunaíma, pela primeira vez um filme de um cinemanovista alcançava grande êxito de público. Assistindo ao filme, não é difícil entender o porquê: a verdade é que Macunaíma é um trabalho genial, uma impressionante mostra de sintonia de um artista com o seu tempo.
Joaquim Pedro não se prende a amarras. Usa o livro de Mário como um ponto de partida, mas o adapta de forma absolutamente original. Tudo em Macunaíma-filme dialoga com o seu tempo: o uso exagerado das cores, as aproximações com estética e linguagem tropicalistas, o ácido subtexto político que perpassa sua narrativa, a recuperação da antropofagia de Oswald de Andrade. Aliás, como viria a afirmar o próprio Joaquim Pedro, seu filme é muito mais uma leitura do mundo pelos olhos de Oswald do que pelos de Mário. Sendo "infiel" ao original, o cineasta é extremamente fiel a Mário de Andrade, e ao espírito modernista. Mostra que a rapsódia de Macunaíma não é uma obra datada, presa ao seu tempo, impossibilitada de dizer algo a outras gerações; pelo contrário, é extremamente dinâmica, subversiva, e tal dinamismo só foi captado a partir do momento em que Joaquim Pedro entendeu a importância da "infidelidade" em sua adaptação (como o próprio chegou também a afirmar). Uma compreensão, que não consigo deixar de pensar, faria muito bem ao meu ex-professor e ao meu colega.

Fica aqui a dica deste clássico absoluto do cinema brasileiro, ainda, felizmente, fundamental.



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*Wallace Andrioli Guedes nasceu em Juiz de Fora, MG, em 1986. Graduou-se em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 2008 e, atualmente, cursa Mestrado em História Contemporânea na Universidade Federal Fluminense, pesquisando as relações entre o filme “Macunaíma”, o Cinema Novo e o modernista Oswald de Andrade. Em seu blog, Crônicas Cinéfilas, publica críticas cinematográficas.

domingo, 21 de junho de 2009

Não dá mais pra Murilo Mendes

Porque Juiz de Fora tem muito mais poesia. E vai aqui uma brevíssima compilação.
Muitos poetas ficaram de fora. Ainda tem muito, muito mais.


Cadeira (Fernando Fábio Fiorese Furtado)

Fonética da cadeira — Quando não seja muda, trata-se de uma consoante ora oclusiva, ora fricativa.
Morfologia da cadeira — Os autores divergem quanto a classificá-la como artigo ou numeral (nas lojas e show-rooms), adjetivo ou pronome (nas empresas e repartições públicas), preposição ou interjeição (nos apartamentos de subúrbio). Sem embargo, predominam os que a consideram apenas conjunção.
Sintaxe da cadeira — Em geral sem sujeito, oculta o homem-nádegas. Pode-se atribuir-lhe incontáveis predicados, embora permaneça assento, braços e espaldar.
Estilística da cadeira — Se há estilo, declina para o não ser cadeira.
As leituras da cadeira — Manuais de instruções, bulas de antipiréticos, anais de congressos de lingüística, relatórios de guarda-chaves, resenhas do último livro do último filósofo francês.

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Cadeira é oração para excomungar cama, porta e caminho.

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Ao princípio (Iacyr Anderson Freitas)

as palavras perderam-se
pelo chão comum
das mitologias, ah
decerto não souberam chegar
ao princípio
ao âmago
ao núcleo da água e do limo
(quem as visse
ante o ouvido endurecido,
já perdidas,
rogando clemência ou nacos de pão
ou vinho)


mas nada, nada resta agora
das palavras,
sua geometria quebrou-se,
desolada.


pois que não fique pedra sobre pedra,
pois que nada ao tempo frutifique
e além do extremo recinto
reste apenas uma nau,
sozinha,
e um dique.

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Manuscrito (Edimilson de Almeida Pereira)

A cada um seu desaparecimento.
Me impressionam as flores,
oficinas de zeros.
Não me ocorre outro nome para elas,
mas pressinto algo em família.
Como se pétalas e veias nascessem
do mesmo alfabeto.
E num caderno durássemos,
ainda que extintos.

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Domingo (Nilson Assunção Alvarenga)

trinta e três e continuo contando relíquias de um tempo que não vivi
sentir passar o tempo não é nada
dói é a alegria de estar vivo
sem anestesia
enquanto os carros passam e a esquina fica,
inequívoca

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mulher em processo (Camila do Valle Fernandes)

as palavras secas, duras, masculinas
as palavras perigosas e pontiagudas entre gritos e sussurros
as palavras penetrantes:
autonomia, repertório, simultaneidade, dessublimador,
associação imagética, corte epistemológico,
marcador diferencial, narrador heterodiegético e
a expressividade em processo.
É que uma mulher não fala assim.
Fala em independência, vocabulário e junção.
Ao que parece e por exemplo.
A palavra, se é do homem e está na minha boca,
o meu corpo sabe: só faço isso para me masturbar.

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cheguei atrasado no campeonato de suicídio (André Monteiro)

cheguei atrasado no campeonato de suicídio
eu queria ser santo e ouvir o silêncio
mas o mundo contaminado desde adão não me deixa a morte em paz
e o piloto automático da nave dos loucos nunca soube apertar
(digo apertar completamente)
o botãozinho do foda-se quem puder nessa casa santa
onde a gente janta com os pais
pede a benção e vai dormir no espelho
entupido de referências analgésicas
qualificativos como poeta, intelectual e artista me provocam nojo
mas eu os utilizao quase que explicitamente
porque nunca fui santo
e quase sei reconhecer um poema ao vê-lo
e quase sei que amo por exemplo pierrot le fou que é um poeta típico
que escreve, sofre, mata e se mata por amor
o amor é a palavra-chave
e o amor pode preencher páginas e páginas de besteiras
e o amor rima com dor
e é cego e etc
e é o princípio de tudo e no princípio era verbo
intransitivo?
a boa poesia se enfia no rabo
falha-me deus pelo abandono que não possuo

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Tu, tempo, de adeuses (Arnaldo Sobrinho)

Tu, tempo, de adeuses
E desvarios teu tecido. Ignoras
O corpo flébil, a garganta de areia
Desterrado o canto mais luminoso.

Se é verdade que de arduidade e fundura
O amor dos poetas, ao menos permite
A dádiva de se encarnar em palavra
O vermelho desta sede – o poema,
Esse castigo.

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Desabafo (Tiago Rattes)

essa vida é uma aposta furada estapafúrdia
um sem fim de versos marginais
dissonantes como os acordes mais
fortes, da guitarra de Lúcio Maia
rasgados, mal-educados, diacrônicos
sílabas apertadas livres
apertos incontáveis
tristes, tipo
uma nóia de Manu(el) Bandeira

Meu caro poeta, aprendi errando
que a palavra é arma mortal
um puta tiro que insiste em sair
pela culatra
e atingir a boca errante
de quem fala
a amarrar as mãos de quem
as escreve
a palavra é forma ingrata tal
o corpo de quem recebe as doses
alopáticas do bombardeio poético
e de cara fechada
vê a vida passar.

#


Esparsos (Carolina Barreto)

Fila infinda.
É nesta que aguardamos
Nossos passos
- já pisados por outrem –

nesse déspota (entediante...)
alvorecer

Os dias se devoram
um a um
nesta ânsia de
prosseguir:

Tecemos nossa mortalha
de dia e à noite
desmanchamos. Doce
esperança
é esta que se inaugura
à margem de si mesmo

no entre-tom do auto-engano
e da dúvida


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(Obs: a inspiração do título do post vem da controversa frase "não dá mais pra Diadorim", dita por um personagem do conto "Intestino grosso" de Rubem Fonseca.)

domingo, 14 de junho de 2009

Um dedinho de prosa

Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. Há quem leve a vida inteira a ler sem nunca ter conseguido ir mais além da leitura, ficam pegados à página, não percebem que as palavras são apenas pedras postas a atravessar a corrente de um rio, se estão ali é para que possamos chegar à outra margem, a outra margem é que importa, a não ser... a não ser que esses tais rios não tenham duas margens, mas muitas, que cada pessoa que lê seja, ela, a sua própria margem, e que seja sua e apenas sua, a margem a que terá de chegar. Mas será a vida um espaço articulado? E os atos, limitam-na ou ampliam-na? Talvez nada possa ser melhorado, arte alguma criar melhor do que o mundo. E se há limites, são os nossos próprios limites. Então escrever a palavra mínima, que não encerra o vivido e antes o abre para o infinito. Diário de viagem sem viagem ou carta sem nenhum destinatário: palavras que, no máximo interagem, com outras palavras do dicionário. Um escrever que é verbo intransitivo que se conjuga numa só pessoa. Um texto reduzido a substantivo menos que abstrato: se nem mesmo soa, como haveria de querer dizer alguma coisa que valesse o vão e duro esforço de fazer sentido? Por outro lado, a coisa dá prazer. Dá uma formidável sensação (mesmo que falsa) de estar sendo ouvido. O escrito é mais silêncio, quando lido. Certos livros viram camisas europas medalhas. Nos fazem retratos, vozes ditadas à nossa voz. Sigilos sigilosos para nós. Que é feito de minha frase que a lavra de outra fala inventa? A literatura, que é a arte casada com o pensamento e a realização sem a mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano, se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal. Creio que dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror. Os campos são mais verdes no dizer-se do que no seu verdor. As flores, se forem descritas com frases que as definam no ar da imaginação, terão cores de uma permanência que a vida celular não permite. Eu gostaria que o leitor se descobrisse a si mesmo, também, nos meus livros. A si mesmo e ao autor, ao mesmo tempo. Nós somos todos tão parecidos. Todos.


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ABREU, Caio Fernando. Morangos mofados. Agir: Rio de Janeiro, 2005.
ANTUNES, António Lobo. Entrevista concedida à Revista LER em Maio de 2008.
BRITTO, Paulo Henriques. Tarde. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
PEREIRA, Edimilson de Almeida. As coisas arcas. Juiz de Fora: Funalfa Edições, 2003.
SANT'ANNA, Sérgio. O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro. São Paulo: Ática, 1982.
SARAMAGO, José. A caverna. São Paulo, Companhia das Letras, 2000.
SOARES, Bernardo. Livro do desassossego. São Paulo: Brasiliense, 1986.